domingo, 12 de abril de 2026

O RIO QUE CHORA


Um rio é como um ser humano:

eles nascem chorando

e, com o tempo,

as lágrimas secam.

As razões de ambos são análogas

onde antes escorriam gotas

feito vidraça em dia chuvoso

com o tempo as lágrimas desaparecem

e se tornam rios de abundância e discordia.

A fonte vira deserto.

 

O pranto é correnteza

cursos d’água veloz

e quando vem, traz o peso:

dor

desastre

afogamento.

 

As lágrimas descem feito rio revolto

removendo tudo à sua frente

as barragens, os abrigos

as pessoas, as posses

as plantações, os sentimentos

e intenções.

 

Num primeiro olhar

o rio é culpado

pela intensidade das suas águas

o humano é culpado

pelas lágrimas que rolam

criando correntes perigosas

que arrastam:

ilusões

plantações

amores

produtores.

Tudo devastado,

os silos

os afetos...

 

A realidade

mascarada de tragédia

esconde os lenços

esconde as margens

esconde as paredes e portas

esconde o assoreamento e contaminação

que oprimem e repressam.

 

Os leitos ressequidos

prolongadamente compelidos:

mudar a rota

mudar a extensão

mudar a natureza

mudar a essência.


As intervenções profundas

expõe as fraturas

expõe as linhas vermelhas

cruzadas milhares de vezes.


A Lua muda de fase

o rio muda seu curso

as pessoas mudam com o tempo

e, não mais suportando,

brotam, eclodem, emergem 

vulção em chamas.


Descortinam o teatro

paciência não é fraqueza.

compreensão não é subserviência.

 

Quando alguém chora

é um rio que transborda

retomando aquilo que é seu

trazendo tudo de volta

                          sua extenção natural

                seus limites de origem

         seu riso que é foz

     sua essência

seu amor.

 

Um rio, tal qual uma pessoa,

jamais chora pelo que aparenta.

Suas vias lacrimais

sua rede de glândulas

seus sacos e ductos

estão para além da aparência

para além do visível.

 

Sua fúria se alicerça

em cada silêncio imposto

em cada dor não chorada.


No devido tempo

toda moeda para de girar.

 

O rio e o ser humano,

nasceram para o fluxo

existem para exercer sua natureza.


Há uma máxima certeira:

a natureza é mais sabia

que toda a humanidade.


Ah, quão ingenuo é o ser

em tentar, domá-la, subjulgá-la...


Não tardará o dia

que a resistência virá

armada com sua força

e arma mais poderosa

o desabafo em forma de lágrimas

gotas, anunciando nascimento

choro, anunciando a vida.

 

Lágrimas e rios

não se estancam

pressões

estruturas

manutenções

vão ruir.

Porque atalhos não são caminhos.




José Ailton Santos

3 comentários:

  1. Bom dia! É da sua autoria essa reflexão em gorma de poema?

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    1. Obrigado por sua atenção e pelo comentário. Todos os escritos do blog são de autoria das vozes que ecoam na mente deste escrevinhador e das minhas vivências (desta de outras vidas).

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  2. Obrigado por sua atenção e pelo comentário. Todos os escritos do blog são de autoria das vozes que ecoam na mente deste escrevinhador e das minhas vivências (desta de outras vidas).

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