domingo, 28 de setembro de 2014

REGRESSO





Não chore assim, meu amor!

Tu sabes que retornarei,
ainda que não seja na Primavera
nem na estação dos frutos
nem junto com as chuvas.

Sei que voltarei,
ainda que seja,
quando não mais me deseje.
Ainda assim, voltarei.

Saiba que voltarei,
mesmo que seja
junto com o mais quente Verão.
Ainda assim, 
vale a pena voltar.
E, caso não possa, conversar contigo
nem estar ao seu lado,
vê-la é o suficiente.

Faz tempo, mas voltei.

A promessa de outrora
só agora pude cumpri-la.

Confesso,
assusta-me a recepção,
assusta-me o reencontro,
assusta-me o que me espera.

Afinal de contas,
o momento já não soa oportuno como d'antes,
quando entre lágrimas castas
convidava-me a regressar.
Talvez não seja conveniente 
e pouco prudente
regressar numa estação,
que não seja a das flores.

Que fazer, se este touro selvagem
- o tempo - 
não está sob meu comando.
Semelhante o regresso é a morte, 
que pode até tardar,
porém nunca deixa de vir até nós.

Cá estou estou...
regressei.


[José Ailton Santos]

sábado, 27 de setembro de 2014

MANIQUEÍSMO EXISTENCIAL


Minha rotina de agora, 
aprisionou o poeta d’outrora
            [dentro de si]
num calabouço: frio, sombrio e nostálgico.

A chave da prisão, fica logo ali...
ao meu alcance. 
Contudo, antes de sair
cuido para que a maquilagem esteja a contento.

Há muito deixei de rabiscar versos,
resolvi trocar meu sentimentalismo utópico
por um comportamento institucional.

O poeta está triste,
anda sem inspiração, magro e sem musas.
No entanto, guarda um comportamente resiliente
e mantém-se vivo
e compartilha suas angústias
com abjetos amigos:
traças, baratas, morcegos, micróbios, vermes...

Não lamentem!
O que é belo e essencial está preservado.
Afinal, a velhice não torna o que de bom há em mim,
feio esteticamente.
Diferentemente dos meus músculos,
                                                            [entre eles inclui-se o reprodutor]
que com a senilidade se tornam decrépitos.

A escuridão,
a solidão,
o vazio
o frio...
são navalhas amoladas, 
contudo cortam apenas galhos,
não são capazes de impedir o desabrochar das flores
tão pouco, extirpam o doce dos frutos.


Tudo o que de bom há na árvore continua...
indelevelmente ad eternum.



[José Ailton Santos]