segunda-feira, 29 de outubro de 2012

COMO ANDA A SAÚDE DAS INSTITUIÇÕES DEMOCRÁTICAS NO BRASIL?





Entre diversas opiniões pessimistas a cerca do presente e do futuro das nossas instituições democráticas, há também comentários, não raros, que defendem ser o Brasil uma democracia recente. Quase sempre a viga sustentadora dessa afirmação se apoia na recente promulgação da Constituição de 1988, fato que, certamente, se pode traduzir como um otimismo contraposto ao pessimismo, que parece dominar a opinião do todo da população nacional. 

Antes de iniciar qualquer diagnóstico conjuntural, parece prudente, que se faça inicialmente esclarecimentos conceituais sobre o que entendemos ser uma instituição em um regime democrático, da mesma forma, o que entendemos como democracia. Penso que esse seja um método seguro para não ver se desfazer os fios do tecido bordado, daí seguir fielmente a receita, após cada ponto um nó.

As instituições são os pilares de qualquer governo da Res Publica, expressão latina que significa coisa pública, elas são responsáveis por manter a solidez da estrutura político-administrativa de uma nação. Enquanto, que a democracia, seguindo na mesma toada, seria o equilíbrio e a harmonia da citada estrutura. No caso, em particular, do Brasil as instituições democráticas vem sofrendo mudanças importantes ao longo da sua história [é uma gestação secular] e podemos assegurar com bastante segurança, que reflexos da sua gênese podem ser observados até nossos dias, óbvio que respeitadas as particularidades de cada época.

É comum ainda no nosso país que os ocupantes de cargos públicos - em todas as esferas de poder - independente dos diferentes lugares que ocupem na hierarquia dos poderes, assumam posturas mais afetivas que institucionais, ou seja, os interesses pessoais costumeiramente se sobrepõe aos da instituição, que teoricamente é fria, imparcial e trata todos com equidade. Trata-se de uma herança do patrimonialismo português, quando este transportou seu modelo administrativo para o Brasil colonial, enraizando assim uma cultura extremamente infausta para o florescimento das democracias.

Estou certo que não trago nenhuma novidade, pois é prática rotineira que ministros, secretários de estado, presidentes e diretores de repartições públicas, de autarquias e secretários municipais, em todas as esferas e nos três poderes da República Federativa do Brasil, as  nomeações são baseadas em indicações afetivas, partidárias e em compadrios, às vezes, esse é o único e decisivo critério, sem levar em conta o mínimo de exigência técnica ou mesmo habilidades essenciais para o bom andamento dos serviços relacionados ao cargo em questão. E, o mais lamentável é que uma parcela enorme da sociedade sofre todo o impacto negativo, justamente, por ignorarem o caráter impessoal que as instituições e a democracia garantem ou deveriam garantir.

É preciso que se inicie um movimento, eu particularmente acredito que já se iniciou, de mudança radical da cultura administrativa nas instituições, em todas sem exceção, para que o Brasil melhore a maneira como lida com a Res Publica, coisa pública. Como exemplo dessa mudança cito ex-corregedora do Conselho Nacional de Justiça - CNJ - e ministra do Superior Tribunal de Justiça - STJ -,  Eliana Calmon, que se propôs a discutir o calcanhar de Aquiles do Poder Judiciário. A mesma apontou que este poder realiza práticas que a instituição jamais defenderia a luz do dia ou diante dos holofotes. Agora, vejam, uma instituição essencial para a manutenção e fortalecimento da democracia no país, agindo contrariamente a tudo que representa e significa, sua missão vital, e a razão da sua existência.

Todos esses fatos apontados são reflexos de uma população pouco educada e esclarecida, pois qualquer sociedade que possua essas condições não toleraria a indicação para cargos de comando e decisão uma pessoa que não possua credibilidade em seu campo de atuação, ou que não possua habilidade para liderar uma boa equipe. Sem respeitar essas condições os serviços de utilidade pública necessários à população sofrerão impactos destrutivos iguais ou superiores  ao fenômeno da corrupção.

Aqui, não pretendo atribuir a educação uma ideia salvacionista, pois muitos teóricos da educação já provaram que a educação sozinha não resolve todas as mazelas sociais de um país. Seria necessário também para o desenvolvimento de toda e qualquer nação possuir, além de educação de boa qualidade, capital financeiro, tecnologia e ciência, apenas para citar os mais relevantes. Todavia, o esforço que realizo é para frisar que em países onde a população possui um nível elevado de consciência e participação política, os impactos negativos do personalismo administrativo são atenuados, não diria inexistentes, mas mínimos.

Acredito e estou convicto, que caminhamos para uma sociedade onde as instituições serão cada vez mais sólidas, imparciais e na sua rotina sofrerão um forte controle popular. Por hora, não me exponho a estabelecer prazos. Contudo, digo que a saúde das instituições democráticas e da democracia no Brasil não vai nada bem, obrigado.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

QUANDO O CARISMA DESAGRADA O PODER




O resultado recente das eleições municipais em Sergipe tem gerando muitas reflexões, e, nesse caso, não falo somente do novo desenho tingido pela força das siglas partidárias - quem conseguiu eleger o maior número de prefeitos e vereadores por todo estado - ou dos candidatos que não conseguiram completar a travessia da reeleição, pois ao que parece, o Mar Vermelho do parlamento municipal exigiu mais que o simples levantar do cajado.
 Falo, especificamente, da polêmica que envolve a eleição para vereador do município de Aracaju do tal sobrinho/filho/sobrinho do Dep. Estadual Adelson Barreto. O candidato em questão, não é novidade, se apresentou no horário eleitoral declarando ser apoiado pelo deputado, como se o fato de se autodenominar, Adelson Barreto “Filho”, já não fosse suficiente. Contudo, ao que consta, a celeuma não se resume, única e exclusivamente, a denominação do candidato, mas ao fato de ter se declarado filho de Adelson Barreto, um dos políticos sergipanos de maior expressão nas urnas, prova disso foi a soma extraordinária de votos recebidos na última eleição para a assembleia legislativa estadual.
Como os acontecimentos dificilmente fogem a regra, Tijol Barreto Evangelista, verdadeiro nome de Adelson Barreto “Filho”, conquistou a soma hercúlea de 5.091 votos, assumindo a quinta colocação entre os eleitos e desbancando nomes de peso, como: Evandro França, Fábio Mitidieri, Bertunilo Menezes, Juvêncio Oliveira, Miriam Ribeiro, Danilo Segundo, Karla Trindade e Profª Rosângela. Some-se a tudo isso o fato de ser um rosto pouco conhecido e que disputou pela primeira vez um mandato eletivo, somente assim teremos uma real dimensão do feito.
Entretanto, espero que esta situação descrita não tenha sido a razão que motivou o Ministério Público Eleitoral e a Polícia Federal, instituições imaculadas e influenciáveis, a intentarem a cassação do mandato popular fruto do processo de escolha democrática. Mesmo porque, ambas instituições, a primeira vista, não possuem razões para tanto; situação semelhante não se pode afirmar a cerca de grupos e partidos dispostos a conseguir ou mesmo aumentar o numero de cadeiras e, consequentemente, de votos no parlamento municipal.
Mas, vejamos as alegações que chegaram até mim pela mídia local: a primeira fala em crime de falsidade ideológica, previsto no Art. 350 da Lei 4.737/65 [Código Eleitoral]:

"Art. 350. Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, para fins eleitorais:
Pena - reclusão até cinco anos e pagamento de 5 a 15 dias-multa, se o documento é público, e reclusão até três anos e pagamento de 3 a 10 dias-multa se o documento é particular.
Parágrafo único. Se o agente da falsidade documental é funcionário público e comete o crime prevalecendo-se do cargo ou se a falsidade ou alteração é de assentamentos de registro civil, a pena é agravada."

A segunda alegação é de abuso de poder da parte do parlamentar, alegando a este interferência na disputa eleitoral, de maneira que, proporcionou desequilíbrio na disputa entre todos os candidatos envolvidos. Assim, atribui-se ao Dep. Estadual, Adelson Barreto, excesso de poder, ou seja, imputa ao mesmo que tenha atuado além da sua competência, que seria apenas legislativa. A terceira e última alegação trata da acusação de narrar fato falso em propaganda eleitoral com fito de ludibriar o eleitor, tirando o máximo de proveito da situação.
Se analisarmos de perto as três denuncias é possível se chegar à conclusão que as acusações se resumem ao fato de Tijol não se tratar de filho, no modelo tradicional, do Deputado Adelson Barreto, daí o entendimento contido na ação ingressada na justiça eleitoral de que o candidato fez campanha mentirosa e se beneficiou do prestigio alheio, dessa forma, enganou o eleitorado.
Entendo que não sou especialista em direito eleitoral, sequer sou bacharel em direito, menos ainda o juiz que emitira a sentença do caso em tela. Todavia, não descarto a ideia de haver como pano de fundo uma articulação forte de pessoas e/ou grupos partidários para cassar o mandato de Adelson Barreto “Filho” e beneficiar os herdeiros da velha política rasteira do estado, como bem nominou o jornalista sergipano Luiz Eduardo Costa, o partido da cana, do gado e o da pistola.
Entendo que a justiça eleitoral deveria ter detectado esta situação no momento do registro da candidatura, pois quem se der ao trabalho de fazer uma leitura rápida no código eleitoral na parte que trata do registro das candidaturas, irá perceber que a lei exige uma gama de documentos necessários a identificação do pretenso candidato, além de apontar situações para a escolha dos nomes que serão usados na propaganda eleitoral.
Por fim, não estou a defender nem acusar terceiros, pois entendo que não sou a pessoa melhor indicada para tais tarefas, bem como sei que meus argumentos despertarão opiniões contrarias e favoráveis, o que é inevitável. Estou apenas levantando conjecturas sobre os fatos que se apresentam ao público.

O VALOR DO TEMPO



Eu sou de um tempo em que os homens
eram fortes.
E as mulheres,
ainda mais fortes.

Eu sou de um tempo em que os homens
impunham força e fúria,
apenas com o grito.
E as mulheres,
mais fortes ainda.

Eu sou de um tempo, onde coração e corpo,
eram
as maiores armas dos homens.
E as mulheres...
ainda fortes.

Eu sou de um tempo em que os homens
não choravam,
porque, invés de lágrimas,
suor e sangue.
Ainda mais fortes, 
as mulheres.

Eu sou deste tempo, onde os homens
são apenas homens.
E as mulheres...
abandonaram a força
para ser, simplesmente,
Mulher.


[José Ailton Santos]

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

GREVISTAS! ATIREM A PRIMEIRA PEDRA!



Tornou-se lugar comum, na grande mídia,  apontar trabalhadores em greve ou mesmo o exercício deste direito - isso mesmo, direito! - como um problema social e de impacto altamente negativo, especialmente, para as camadas menos favorecidas da sociedade brasileira. Vale lembrar que a greve é um instrumento extraordinariamente poderoso - talvez, esse seja o centro da questão - no equilíbrio, ou seria desequilíbrio, das forças envolvidas no conflito que caracteriza as relações econômicas, sociais e trabalhistas. 
Por outro lado, diferente do fenômeno social que a greve representa, o seu exercício não pode ser confundido com o próprio direito em si, pois, enquanto o direito ao ato é simbólico, a sua prática representa a mais nítida manifestação de cidadania, sem olvidar do aspecto pedagógico que o ato atinge. Por conseguinte, se a greve de forma isolada representa a libertação da classe-que-vive-do-trabalho [para usar uma expressão de Ricardo Antunes em seu livro intitulado, Adeus ao trabalho: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho], o seu exercício soa como transcendência.
Aqui, não me darei ao trabalho de contextualizar histórica e politicamente o cenário e os esforços empregados por muitos cidadãos brasileiros na conquista desse patrimônio do trabalhador – a greve. Afinal de contas, suponho ser do conhecimento de todos, se não em profundidade ao menos de ouvir dizer, os esforços e tragédias dispensados nessa conquista. E, no mais, não intento cansar o leitor tecendo uma colcha de retalhos das lutas e batalhas que precederam esta conquista social.
Mas, vejamos, onde é que pretendo chegar? Vou direto a questão que me motivou a escrever tal missiva. Conhecendo a realidade brasileira – não que a conheça tão bem, porém a julgar pelo que chega ao meu conhecimento – e de como inúmeros direitos, que são desconhecidos pela maioria da população, são negados, ignorados, interpretados e reinterpretados a luz do mais forte, ou seja, todos os recursos são disponibilizados para negar a classe-que-vive-do-trabalho direitos que lhes pertencem, ao que consta, tem garantias constitucionais, contudo, na pratica a realidade ecoa muito diferente, pois o direito de exercício necessita de endereço, sobrenome e credenciais.
Diante do exposto, fico um tanto quanto receoso, quando ouço, leio e vejo na grande mídia, seja ela local, regional e/ou nacional, alguns formadores de opinião [radialistas, jornalistas, políticos, empresários, intelectuais...] apontando a greve ou mesmo seu exercício como motivo, único e exclusivo, causador dos infindáveis transtornos que assaltam à população.
Esquecendo-se de discutir o outro lado da moeda. Por que não discutir com profundidade as razões que levam trabalhadores em todo o país, quiçá no mundo, a cruzarem os braços como forma de forçar uma negociação que atenue seus sofrimentos e minimizem a péssima qualidade como frequentemente é prestado alguns serviços de utilidade pública, a saber, educação, saúde, transporte, serviços bancários, telegráficos e de comunicação, além de outros.
Esses criadores de catástrofes sociais, que vêm na mobilização das massas um caos social, não enxergam [ou melhor, sabem o que fazem, porém tentam mostrar o contrário] que a tentativa de acabar com as greves é uma ação coordenada por uma aristocracia que tem como pressuposto a desigualdade essencial dos indivíduos, refiro-me a desigualdade em todos os sentidos.
A questão é que a greve não fica apenas no plano das negociações de categorias de trabalhadores, ela tem se mostrado um mecanismo de democratização das relações de poder entre as várias camadas da sociedade, gerando uma correlação de forças, que tem se apresentado eficiente ao incluírem na vida política, camadas sociais até então excluídas. Sendo mais objetivo, rompendo com um padrão de mando oligárquico e antiquado.
Aqui, reside o problema central que a grande mídia e seus sequazes tentam esconder da população, em uma tênue cortina de fumaça, quando tratam do direito de greve. O medo, o pavor, o temor, o receio claustrofóbico desse exercício de cidadania amalgamar as classes superiores com os elementos situados nas camadas inferiores, que até bem pouco tempo estavam marginalizados da vida política brasileira.

OLHAR DISCRETO



Certa vez parei para observar,
com olhar próprio de artesão,
e, minunciosamente, fixei meus olhos
nas mulheres:

da minha rua,
da minha escola, 
da minha cidade;

branca, preta, amarela,
a mulher do vizinho,
dos amigos,
de todo o resto

todas são diferentes!
Cabelos, sorriso, olhar,
seus vales e montanhas,

curvas, 
volumes,
 leveza, 
sensualidade,
feminilidade,

Algumas me aceitam,
outras me rejeitam,
a maioria me ignora.

Nas mulheres?

Em comum, só há uma coisa,
o desejo, a alegria e a vida
que despertam em mim

José Ailton Santos

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O MUNDO PÓS-MODERNO



A sociedade pós-moderna modificou significativamente a condição da vida humana e isso ocorreu exatamente durante todo século XX, sendo que de forma mais acentuada nas últimas décadas da transição para o século XXI. Afinal, deixamos de ser uma sociedade de produção e passamos a ser uma sociedade de consumo. Mas, você deve estar se perguntando e qual o impacto concreto dessa mudança na vida das pessoas comuns? A resposta vem em seguida, as sociedades foram individualizadas e as pessoas seguiram no mesmo caminho, por conseguinte, esse individualismo é decorrente da mudança do padrão de pensamento/comportamento em uma escala de grandes proporções.
No período correspondente ao surgimento dos estados nacionais [Estado-Nação] europeus, ou seja, final do século XVIII e início do XIX, construía-se naquele momento identidades coletivas de grandes proporções. Afinal, estavam sendo formadas as nações, ou países como conhecemos atualmente, estamos falando de pessoas que viviam em um dado território e que possuíam características singulares.
 Então, fora a partir das chamadas unificações [Italiana e Alemã para citar as mais conhecidas] que surgiu um aspecto coletivo que reunia características pelas quais esses povos passaram a ser definitivamente reconhecível, para ser mais claro, um sentimento de pertencimento, que hoje poderíamos chamar de Identidade Nacional. Naquela época, assim como hoje, a identidade de um povo estava associada a traços comuns e de reconhecimento geral, a saber, língua, religião, moeda, hinos, cultura, história, etnia. Tudo organizado e posto em prática dentro de um Estado soberano.
Todavia, durante o século XX as chamadas identidades nacionais foram sofrendo alterações, as pessoas já não tinham tão claro em suas mentes a qual comunidade faziam parte,  qual Estado ou Nação pertencem, com qual corrente politico-ideológica se identificam, eram indagações levantadas. E, daí a pergunta que muitos passaram a fazer, qual minha identidade? Mas, certamente, você deve estar se perguntando, por que tanta ênfase nesse aspecto se houve tantas mudanças ao longo dos dois últimos séculos. Novamente a resposta vem em seguida, a identidade das pessoas em todo mundo, possivelmente, tenha sido a mais afetada e de cara seja a mais grave das mudanças em todo o mundo.
Afinal, quando um povo perde sua identidade, perde seu maior patrimônio, pois o resultado é uma pasteurização cultural, onde tende a prevalecer a cultura dominante e o extermínio acelerado das manifestações de povos e grupos minoritários.
E este é, sem dívida, o cenário que se desenha atualmente, afinal de contas, o que se observa são as pessoas em diferentes países adotando uma postura cada vez mais individualista e pragmática da vida, situação que pode levar a resultados inesperados no tocante a manutenção das politicas públicas, onde essas ainda existem, e a conservação da própria democracia, ao menos, da forma como a conhecemos na época que corre.
Com base na mudança do modelo de sociedade, as nações e os cidadãos em todo o mundo envolveram-se em um processo acelerado de redefinição dos significados e propósitos das suas vidas. E, com isso, percebe-se nas pessoas, principalmente naquelas que vivem em regimes democráticos, uma necessidade de criar sua própria identidade [você não mais herda como no período do Estado-Nação] tem que começar do zero.
Esse movimento na direção do indivíduo e em oposição direta ao coletivo tem demonstrado que vivemos em tempos de transição. Agora, para onde vamos seguir, ou seja, em que tipo de sociedade viveremos nos próximos anos? Certamente, esta é uma pergunta que poucos, quiçá, ninguém tenha uma resposta concreta. Porém, duas certezas são possíveis anunciar, com pouca margem de erro, dentre as mudanças significativas ocorridas nos últimos cem anos e a incerteza de que não sabemos quais dessas mudanças vão durar e se durar por quanto tempo, bem como qual o futuro das atuais gerações.
 A primeira certeza que se pode afirmar é a de que o mundo está e vai continuar cada vez mais interdependente, melhor explicando, o que ocorrer em um extremo do mundo, na Malásia, por exemplo, afeta a vida do cidadão [quer saibam ou não do ocorrido, quer reservem importância ou não] do outro extremo do globo. E, quanto à segunda certeza, trata-se dos recursos naturais, é bem verdade que nos últimos 300 anos em que os humanos foram os gestores dos recursos do planeta, produzimos tecnologias voltadas apenas para a extração, exploração e consumo desses recursos, por conseguinte, a segunda certeza é a de que chegamos a um ponto em que podemos enxergar os limites de inúmeros recursos naturais.
Já, quanto ao destino da democracia, como não sou profeta evito anunciar profecias. No entanto, não me furtarei em fazer algumas rápidas observações. Os trintas primeiros anos após a segunda grande guerra foram anos de fortalecimento das democracias, enquanto ideia em ascensão, pelo mundo. Entretanto, na época em curso o que podemos ver, e cada vez mais, são pessoas convencidas de que a democracia seja realmente uma coisa boa. E porquê? 
Respondo, porque a democracia está em decadência. Aqui, peço um pouco de calma ao leitor. A primeira vista pode soar como uma ideia muito radical, mas eu explico melhor, antes um parêntese, na verdade não podemos usar os acontecimentos recentes ocorridos nos países da região norte da África como um crescimento da democracia pelo mundo, ainda é cedo para julgar o que de fato ocorreu nesses países, fecho o parenteses e volto ao ponto da decadência das democracias; o que assistimos, com raras exceções, são Estados subcontratando, isto é, tarefas que antes eram exercidas pelo Estado, ou que este deveria realizar, sendo planejadas, organizadas e executadas por setores não pertencentes ao Estado.
Quais os efeitos desses acontecimentos, o divórcio entre o poder e a política. Logo, um Estado relativamente sem poder consegue oferecer cada vez menos aos cidadãos, daí a duvida a cerca da qualidade da democracia e da sua durabilidade, ao menos, com as características atuais.
Continuando ainda no caminho das observações, sem fazer profecias. Talvez, estejamos presenciando a gestação de uma democracia em escala global, enxergar como será possível é uma tarefa árdua, afinal como imaginar uma forma dos Estados continuarem defendendo os direitos dos seus cidadãos. Seguindo na mesma toada, não é tarefa fácil para o Estado continuar defendendo sozinho o futuro da democracia.
A bem da verdade, temos que entender que as instituições democráticas e seu funcionamento, da forma como conhecemos hoje, foram criadas e adaptadas para um tipo de sociedade bem diferente da que vivemos, mas que teve sua importância e utilidade. Portanto, o desafio é criar equivalentes globais, iguais ou semelhantes, as inventadas por nossos antepassados; eles deram vida a democracia representativa de âmbito nacional, eles inventaram a jurisdição e não apenas leis locais, baseadas na tradição, criaram leis de abrangência nacional em lugar do direito consuetudinário.
Aqui, vamos traçar um comparativo, se Aristóteles [falo desse  pensador por ter sido o primeiro a escrever de maneira conceitual sobre a democracia] fosse vivo e visse como funciona nossa democracia, certo estou, que ele iria rir de todo esse teatro. Afinal de contas, a democracia pensada por Aristóteles para a Grécia Antiga era outra totalmente diferente, mais simples e limitada. 
A partir dessa argumentação é perfeitamente possível concluir que Democracia é um regime político que assume formas, estratégias e instrumentos distintos em momentos históricos diferentes, e, acredito que estamos vivendo em um que exige novas instituições, que sejam mais compatíveis com o alvorecer dos tempos.
Penso que o momento aponta para o surgimento de uma democracia nova, onde o Estado vai assumir o lugar das instituições que lhe dão sustentação e cederá seu lugar para uma espécie de Estado Global. Todavia, o que não está muito claro é qual será o papel do cidadão neste contexto pós-moderno.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

UM DIA DEPOIS DAS ELEIÇÕES




Passado o momento da euforia, das paixões compulsivas, das rivalidades entre amigos, vizinhos e até mesmo familiares, a cidade bicolor ganha ares de desbotamento, que se inclina entre o roxo e o lilás [cores geradas pela mistura entre o vermelho e o azul] a depender da maior ou menor quantidade de uma das cores. No caso de Cedro de São João a tonalidade que predomina é o roxo forte, devido ao maior percentual do azul.

Mas, certo é que, o dia seguinte ao do voto, os pacatos munícipes voltam à rotina fleumática e retiram dos guarda-roupas os velhos problemas. Estes, até então, ignorados e esquecidos pelo ambiente trivial e quase pueril das campanhas políticas.

O candidato vitorioso e seus sequazes, depois de passar a bebedeira, terão que sentar e tentar relembrar suas promessas de campanhas – algumas, inclusive, impossíveis de darem dois passos no mundo real – para não decepcionar aqueles eleitores, minoria claro, que atentos tomaram notas de tudo. Além, óbvio, de enontrar maneiras de executá-las. Afinal, não dá só para fazer bravata, temos que aguardar a chegada do grupo no poder, pois discursos do tipo: “vamos fazer isso”, “vamos mudar aquilo e aquilo outro”, “sou contra a corrupção”. Isso, convenhamos, é um vicio de palanque no qual todos acabam cedendo, até mesmo o melhor dos beatos devoto de São Boas Intensões.

Pois, muitos de nós somos sabedores, que uma coisa é fazer críticas e apontar fragilidades de um opositor, outra coisa bem diferente é não ser seduzido pelos melífluos do poder. Afinal de contas, inequivocamente, somos contra a corrupção do outro, todavia quando o assunto é a corrupção no meu governo, o imperativo é sempre casuisticamente o do silêncio e o da cegueira.

Vejamos, não vi durante o período bicolor no município de Cedro de São João nenhuma discussão que aprofundasse as questões sobre as mazelas existentes no município. Pergunto, prematura e oportunamente, o que será feito para mudar o quadro dos péssimos índices educacionais na cidade? Pois, se olharmos para alguns dados colhidos no site do TRE/SE, dos 4.401 eleitores de Cedro 57,215% compreende o percentual dos eleitores que são analfabetos, leem e escrevem apenas, não completaram o ensino fundamental e os que completaram o ensino fundamental apenas. Percentual, aliás, suficiente para eleger qualquer um que tencione o executivo municipal. 

E, continuando, entre os eleitores que possuem nível superior [a grande maioria mora na capital do estado] grupo que, supostamente escolhem seus candidatos com mais cautela e prudência, apenas 322 eleitores, ou seja, 7,317% do total. Certamente, esse grupo não chega a ser suficiente para definir quem será o novo marido da viúva.

A partir desses dados uma opinião mais apressada poderia afirmar que eleição em Cedro de São João ganha aquele que exercer maior influencia, financeira principalmente, sobre o total do eleitorado. Isso, levando-se em consideração que mais da metade dos votantes são pessoas que não acompanham a política de perto, vivem em condições de extrema pobreza e com um grau de escolaridade e esclarecimento sobre a realidade muito aquém do esperado.

Por fim, sem delongas, pergunto novamente, quais as estratégias e instrumentos que serão utilizados para resolver situações como: a contenção do avanço do uso de drogas, a redução da violência, a redução da banalização sexual, todas essas questões entre o público jovem. Como mapear e auxiliar as famílias em estado de miséria social – falta de moradia, saneamento, acesso à saúde, et cetera? Como criar alternativas para estimular a geração de empregos? Como acabar com a política dos subempregos na administração local? Dentre tantas outras questões que podem vir a serem levantadas.

Torço para que o roxo forte, resultado do desbotamento bicolor, não degringole para uma política fastidiosa, cíclica e velha conhecida de todos, onde o velho ditado popular se perpetue, “aos meus o céu, ao demais o inferno”.  

Parabéns ao candidato eleito, boa sorte, que Deus o guie no caminho do progresso e um recado, o Panóptico está vígil!