quinta-feira, 19 de setembro de 2019

CONVITE


Convido-a para sentar ao meu lado
leio Conceição Evaristo para ela
e dada a proximidade
nos lançamos na escuridão abissal
do outro
de um beijo
da inevitável incerteza

uma, duas, três... peças abandonam a moral
vão sendo retiradas à medida que os corpos
se inclinam
se enlaçam
se completam

E os amantes desnudos
abrem e alongam membros
conectados num magnetismo hipnótico
onde o Eu e o Outro
se convergem
se transmutam
em unicidade rara.







José Ailton Santos - Licenciado em História pela Universidade Federal de Sergipe, Pós Graduado pela Faculdade Pio X em História do Brasil, Graduando do curso de Administração de Empresas pela UNIT, ex-professor efetivo da rede estadual de ensino do estado de Sergipe, funcionário efetivo do Banco do Estado de Sergipe com certificação pela ANBIMA, blogueiro, poeta de ocasião e portador da SPNDLR [Síndrome Patológica de Necessidade Diária de Leitura e Reflexão].





ENTREGA GLORIOSA




Me senti poderoso
me senti feito leão
a rugir ao nascer do Sol
altivo
imponente
majestoso
monumental
gaudioso de mim

Era só êxtase e vaidade
consegui trazê-la até mim
aquele ser que feito serpente no Éden*
me atraia
me seduzia
me instigava
me fascinava
ainda que não tivesse intenção.

Trouxe-a até mim
feito peixe faminto
em anzol de pescador hábil
fisguei-a e no recolher da linha
entregou-se em mãos para ser servida.

Não sabia explicar ao certo
se sorriso
se gestos
se cheiro
se movimento
se a maneira singular de olhar

Ela se pensava segura de si
nada a conduziria ao abismo
nenhum sentimento desenfreado 
não seria vencida, era pura razão e lucidez.

Contudo,
bem é verdade o dito popular:
coração é terra de ninguém
é castelo sem rei

desejo, amor e paixão não possui senhores

Ela veio até mim
batalha sangrenta
um cão sempre sabe/sente
quando a cadela está no cio
a cadela de modo análogo
[ainda que resista]
sente/sabe que desejará se entregar.
Não há como fugir da natureza constituinte
não há como fugir daquilo a qual fomos destinados.

O teatro se estabeleceu
não cedeu sem antes:
ser vencida
ser subjugada...
no jogo da sedução
ganha quem tem armas afiadas

A entrega é ritual divino
não basta o meu desejo
não basta o desejo do outro
se trata de desejar e ser desejado
eis a beleza inaudita da entrega
eis o ápice do amor

O desamor é não manter
o desejar dual
a via de mão dupla
o entregar-se gloriosamente.

Por fim, abriu-se para mim
feito cauda de pavão
e naquele instante 
a glória se consumou.






* Menção a passagem mítica, contida no livro de Gênese, de Adão e Eva a comer do fruto proibido.



José Ailton Santos - Licenciado em História pela Universidade Federal de Sergipe, Pós Graduado pela Faculdade Pio X em História do Brasil, Graduando do curso de Administração de Empresas pela UNIT, ex-professor efetivo da rede estadual de ensino do estado de Sergipe, funcionário efetivo do Banco do Estado de Sergipe com certificação pela ANBIMA, blogueiro, poeta de ocasião e portador da SPNDLR [Síndrome Patológica de Necessidade Diária de Leitura e Reflexão].



quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A CARNE QUE HABITO



Caminho pelo deserto
longos caminhos curtos
curtos caminhos longos

frio
jejuns
orações

minha jornada
parecia terminar
eis que veio o frio,
o edredon que antes
aquecia e sufocava
[minhas carências]
não consegue mais me acolher.

Em mim,
algo avassalador pulsa

clamores
orações perenes
jejuns mais intensos
sou um ser em agonia.
Minha jornada que há pouco 
parecia ter fim
se revela prisão eterna

Não resisto e cedo:
me permito,
me sinto fluida,
me entrego em banquete
e tudo [neste instante] faz sentido.

Me descubro humana
me descubro na carne que habito

Sem sair do deserto
fui estar com ele
à sombra de um lugar:
despida
descalça
desinibida
tocando e sendo tocada

A natureza é imperativa
já o meu deserto é administrativo

Sedenta,
bebo mais de uma taça
não pela bebida e sim pelo não estar só.

Me sinto segura
o caminhar no deserto só me faz bem.







José Ailton Santos - Licenciado em História pela Universidade Federal de Sergipe, Pós Graduado pela Faculdade Pio X em História do Brasil, Graduando do curso de Administração de Empresas pela UNIT, ex-professor efetivo da rede estadual de ensino do estado de Sergipe, funcionário efetivo do Banco do Estado de Sergipe com certificação pela ANBIMA, blogueiro, poeta de ocasião e portador da SPNDLR [Síndrome Patológica de Necessidade Diária de Leitura e Reflexão].

LOKI*



Me perguntaram se eu minto.

Veja bem, não se trata da mentira
e sim do valor que a verdade possui.
Não reconheço que minto,
reconheço que não existem valores absolutos.

Reconheço que o conceito verdade
pode ser uma grande mentira
e que as minhas/suas mentiras,
podem ser um caminho em direção ao essencial.

Mentira e verdade
são pontes que nos levam a estar com o outro.



* É um deus, na mitologia nórdica, ou um jotun [gigantes que se opõe aos deuses], filho de Farbanti e Laufey, irmão de Helblindi e Býleistr. É o deus do fogo, da trapaça e da travessura, está também relacionado à magia, podendo assumir forma que quiser.



José Ailton Santos - Licenciado em História pela Universidade Federal de Sergipe, Pós Graduado pela Faculdade Pio X em História do Brasil, Graduando do curso de Administração de Empresas pela UNIT, ex-professor efetivo da rede estadual de ensino do estado de Sergipe, funcionário efetivo do Banco do Estado de Sergipe com certificação pela ANBIMA, blogueiro, poeta de ocasião e portador da SPNDLR [Síndrome Patológica de Necessidade Diária de Leitura e Reflexão].