segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ORAÇÃO DO HOMEM VIGILANTE


 
Senhor, proteja-me dos meus amigos

que dos meus inimigos, cuido eu.

[voltaire, 1694-1778]


Conselho de um pai para um filho:

- Se vir o rio subindo o morro

é sinal de que alguém

está retribuindo uma gentileza.

[Conto folclórico africano]


Recado para alguém chegar no topo.

- Esse é o posto:

de menos poder 

de menos segurança

de menos...

pois todos nos níveis abaixo

desejam tirá-lo de lá.

[Ditado chinês]


Apresento-lhe uma lei imutável.

- Os homens apressam-se mais 

a retribuir um dano

do que um benefício

porque a gratidão é um peso

e a vingança, um prazer.

[Tácito, C. 55-120 d.C.]


Um conselho para quem atrai o sucesso.

- Via de regra, você destrói seus inimigos

quando os tornam amigos.

Mas se não queres atrair a ruína

seja vigilante para o contrário não acontecer.

[Abraham Lincoln, 1809-1865]


Por fim, um conselho para se manter velhos amigos.

- Eu o digo. Bons amigos só existem

enquanto existem interesses

[de um dos lados ou de ambos]

Pobres não são amigos de ricos

Tolos não são amigos dos sábios

Covardes não são amigos dos corajosos

Um velho amigo, quem precisa deles?

[Conto Mahabarata, séc. III a. C.]


Aqui vão as palavras deste missivista

minha humilde contribuição a esta oração.

Como sou um esforçado seguidor de Cristo,

teimo, costumeiramente, 

em ignorar as lições acima.

 

Eu sinto em meu íntimo

que se a humanidade 

desejasse voar e desenvolver asas

para atingir tal intento

bastaria acreditar com todas as entrenhas

com as forças que se escondem

atrás das portas secretas do coração

poderia fazê-lo,

assim penso e sinto


E, quando isso acontecer

certamente, algo adicional

comecaria a se desenvolver 

para que pudessemos voar.


Todavia, enquanto,

[do nascimento até a morte]

continuarmos nos condicionando 

em acreditar apenas

no mundo que capturamos 

pelos nossos cinco sentidos:

audição

olfato

paladar

tato

visão


Melhor levar em conta 

as lições dos homens e contos

supramencionados

ou se converter em Argos Panoptes*


José Ailton Santos



* Argos Panoptes [do grefo PAN "tudo" e OPTES "olho/visão"] significa "aquele que tudo ver", refere-se a um gigante de cem olhos conhecido por sua vigilância perpétua, isso o tornava um guadião perfeito, ele podia olhar em todas as direções, ainda que seus olhos estivessem fechados.

 

domingo, 4 de janeiro de 2026

O ÚNICO QUE AMA*


Para dominar era preciso:

bravura

valentia

punhais e espadas.

Erro bobo de um estágio natural.


Se nós o possuímos 

que nos importa

o que acontece aos outros?

Ideia de posse e único desejo:

rude

silvestre

indomesticável.


Ele nos assiste a todos

de modo perpétuo

possuídos e possuidores.

Todos, repetindo os mesmos padrões:

Crueldade

Egoísmo

Orgulho

Sexualidade violenta


Ele é assim,

quanto mais queremos possuir

mais fortemente somos possuídos.

Quanto menos livres somos

mais atados e acorrentados seremos.

E da ausência de discernimento:

Agonia

Angústia

Amargura

Mágoa

Padecimento

Ressentimentos

Tortura...


Quanto mais anelamos reter

mais somos afastados.

Daí nasce: 

Apatia

Desalento

Desilusão 

Frustação


Nas trevas,

imperava o sentimento 

que nossa vontade e desejo

eram supremos. Consequentemente,

víamos todos os que se opunham esmagados.


No fulgor, 

sentimento que o outro

tem vontades e mesmo assim

impulsiona-o, ajuda-o a regar.

Sentimento que a árvore que rego

teima em expandir os galhos e frutos

para o quintal do vizinho

e, ainda assim, continuar regando.


A emancipação vem, quando:

somos livres para caminhar

sem a preocupação 

de sermos ou não seguidos.

E tudo bem,

se o outro se inclina na direção oposta.


Muita água correu pelas pedras 

e levou consigo muita sujeira.

O clarão voltou a brilhar 

e nos mostrou 

o que possuíamos:

sombras e substâncias

ambas semelhantes a fogos de artifícios

que só brilharam por um instante:

fugaz

efêmero

estrela cadente.

E se dissipou 

nos deixando despidos e sozinhos.


O Único que ama

nos ensima a descobri-lo

através de suas dádivas.

E Ele nasce do que distribuímos

e não do que guardamos.


Parece estranho 

mas o pássaro que melhor canta

não vive em casa dourada.

E sim, aquele que habita uma gaiola

com alimento saudável

água limpa e fresca

e, especialmente, de porta aberta.



JOSÉ AILTON SANTOS


*Uma singela homenagem a Krishnamurti e ao seu texto, Aos pés do Mestre.