Um cavaleiro de face sombria,
passos lentos e olhos voltados para o chão,
arrasta sua gadanha¹ entre as flores do jardim.
As flores:
são mais duras que pedra,
são mais ásperas que madeira,
e suas pétalas estão mais descobertas
que a nudez em estado de natureza.
As flores cortadas não sagram,
apenas gemem,
um gemido angustiado.
[Ai de mim!]
A brisa observa tudo a distância,
sem sacrificar a verdade
nem a justiça.
As paixões humanas,
movidas por aventuras,
cavalgam e levam
em uma mão, as rédeas
em outra mão, flores para Guinevere².
Quando há disputas,
cavaleiros se debatem,
[em batalhas justas ou não]
o vencedor ergue o braço
e em sua mão em torre, flores.
Não obstante, quando o cavaleiro
volta para a floresta derrotado,
arrastando sua gadanha entre as flores,
algumas envergonham-se [de tal modo]
que perdem sua fragrância e beleza.
Quando o sangue sagrado escorre,
revelando o antigo pecado das flores,
perde-se:
a dureza
a aspereza
a nudez
a paixão
a aventura
a disputa.
Do cume da torre,
a flor/rainha vê o cavaleiro
de posse dos símbolos do poder
caminhando em sua direção
e empunhando sua acha³ para decapitá-la.
Neste instante, a rainha toma consciência do perigo,
se precipita da torre e se desfaz.
¹ Gadanha - Ou gadanho, ou alfanje ou, mais popularmente, foice. Ferramenta cortante simbolicamente associado à morte.
² Guinevere - É uma personagem mitológica na literatura, nas lendas é a rainha do Rei Artur, filha do rei Leodegrance de cameliard, que mantém um amor em segredo com Lancelot, um dos cavaleiros do círculo da Távola Redonda e um dos amigos mais próximos do rei Artur.
³ Acha - Arma antiga, com feitio de um machado, conhecida nos mitos medievais como acha-de-guerra.
José Ailton Santos - Licenciado em História pela Universidade Federal de Sergipe [UFS], Pós-graduado pela faculdade Pio X em História do Brasil, bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Tiradentes [UNIT], ex-professor efetivo da rede estadual de ensino do estado de Sergipe, funcionário efetivo do Banco do Estado de Sergipe com certificação pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais [ANBIMA], blogueiro, poeta de ocasião e portador da SPNDLR [Síndrome Patológica de Necessidade Diária de Leitura e Reflexão].
