Mais fácil
é sentar em poltrona confortável
e escrever relatos sensacionais
de quem venceu a morte.
Mais fácil
é descrever enfermidades
do que enfrentá-las e vencê-las.
Menos perigoso
é inventar intrigas
é fantasiar horrores
do que ser vítima deles
e sobreviver para contar.
Os escritores de hoje,
conduzem seu leitores
por áreas:
pobres
periféricas
penumbras...
e raras vezes
vão ali
quiçá pisaram o pé nesses lugares.
Os especialistas em:
aflições
chagas
desgostos
doenças
infortúnios
mazelas
mortes...
raras vezes
entram em hospitais
frequentam cemitérios
pois, ao pisarem nestes lugares
seu heroismo os abandonam
jazem sepultados.
Poetas
Filósofos
Políticos
Médicos...
todos edificam odes
saudando a morte.
Todavia,
tremem, empalidecem e correm
só de ouvirem falar do nome
dessa melhor amiga.
Em contraposição
aos caminhos fáceis
lutaram muito
Miguel Ângelo** e Vasari***
contra a sinistra amiga
e foram ambos vencidos.
Esses devotados guerreiros
viram derrotados
um a um os esforços
e tantos quantos quiseram defender
foram acorrentados e cortados
pela colheitadora de vidas
ceifados pela foice**** de almas humanas.
É uma batalha que só há um vencedor
independente de quem se candidate
todos serão subjugados
não importando se quem luta
senta em trono de ouro
ou aqueles em cuja sepulturas
não há cruz de mármore.
Há entre os gladiadores
os que tentam se manter vivos
ainda que na memória coletiva
bem como aqueles
que já estavam esquecidos
antes da própria morte.
José Ailton Santos
* O título e o texto foram inspirador por alguns textos lidos, a saber, alguns livros bíblicos, O livro de San Michele - Axel Munthe, O Banquete - Platão, A Morte de Ivan Ilitch - Liev Tolstói e alguns poemas de Augusto dos Anjos, Clarice Lispector e Fernando Pessoa.
* *Miguel Ângelo Buonarroti [1475-1564], maior artista da sua época nas artes.
*** Giorgio Vasari [1511-1574], alguém fundamental para a história da arte e admirador e biografo da genialidade do personagem acima.
**** Assim como um agricultor usa a foice para ceifar grãos maduros, a figura da morte usa a ferraenta para colher almas, não importando idade, sexo ou mérito. A imagem da foice sugere que a morte é um agente ativo, que igualmente um agricultor, remove os seres humanos do mesmo modo que separa os grãos do solo.
