quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

BATALHA CONTRA A MORTE*



Mais fácil 

é sentar em poltrona confortável

e escrever relatos sensacionais 

de quem venceu a morte.


Mais fácil 

é descrever enfermidades 

do que enfrentá-las e vencê-las.


Menos perigoso 

é inventar intrigas

é fantasiar horrores

do que ser vítima deles 

e sobreviver para contar.


Os escritores de hoje,

conduzem seu leitores

por áreas:

pobres

periféricas

penumbras...

e raras vezes

vão ali

quiçá pisaram o pé nesses lugares.


Os especialistas em:

aflições

chagas

desgostos

doenças

infortúnios

mazelas

mortes...

raras vezes

entram em hospitais

frequentam cemitérios

pois, ao pisarem nestes lugares

seu heroismo os abandonam

jazem sepultados.


Poetas

Filósofos 

Políticos

Médicos...

todos edificam odes

saudando a morte.

Todavia,

tremem, empalidecem e correm

só de ouvirem falar do nome

dessa melhor amiga.


Em contraposição

aos caminhos fáceis 

lutaram muito 

Miguel Ângelo** e Vasari***

contra a sinistra amiga

e foram ambos vencidos.

Esses devotados guerreiros 

viram derrotados

um a um os esforços 

e tantos quantos quiseram defender 

foram acorrentados e cortados

pela colheitadora de vidas

ceifados pela foice**** de almas humanas.


É uma batalha que só há um vencedor

independente de quem se candidate

todos serão subjugados

não importando se quem luta

senta em trono de ouro 

ou aqueles em cuja sepulturas 

não há cruz de mármore.


Há entre os gladiadores 

os que tentam se manter vivos

ainda que na memória coletiva 

bem como aqueles

que já estavam esquecidos

antes da própria morte.



José Ailton Santos



* O título e o texto foram inspirador por alguns textos lidos, a saber, alguns livros bíblicos, O livro de San Michele - Axel Munthe, O Banquete - Platão, A Morte de Ivan Ilitch - Liev Tolstói e alguns poemas de Augusto dos Anjos, Clarice Lispector e Fernando Pessoa.

* *Miguel Ângelo Buonarroti [1475-1564], maior artista da sua época nas artes.

*** Giorgio Vasari [1511-1574], alguém fundamental para a história da arte e admirador e biografo da genialidade do personagem acima.

**** Assim como um agricultor usa a foice para ceifar grãos maduros, a figura da morte usa a ferraenta para colher almas, não importando idade, sexo ou mérito. A imagem da foice sugere que a morte é um agente ativo, que igualmente um agricultor, remove os seres humanos do mesmo modo que separa os grãos do solo.