Descobrir que se vivesse
nos tempos das cavernas
estaria lá até hoje
não por apego, e sim por medo.
Se fosse um dos raros ancestrais
nos primordios da humanidade
habitando em cavernas
não chegaríamos até aqui
ao menos, não por meu mérito
pois não seria capaz de abandonar
o "lugar seguro"
o mundo conhecido
o meu referencial
o meu mapa...
para ousar dar passos no escuro.
Sempre que resolvo apagar as luzes
tenho a sensação que alguém
em um canto escuro me espreita
algo me acompanha sem que perceba
sei porque minha intuição me alerta
isso me deixa,
instável e inseguro.
Então:
arrepios
medo
pavor
taquipneia...
não resisto a escalada
daí, dedo no interruptor.
Luzes, ufa!
Hoje, ao chegar em casa
uma coragem pulsava
dentro de mim
algo em meu interior
queria sentir/enfrentar aquela escuridão.
Dedo no interruptor,
luzes cessaram
penumbra total
gritos no coliseu
e na arena, uma batalha de gladiadores.
Senti que algo
que antes me olhava
continuava mirando em mim.
Algo que me seguia
sem ser percebido
continuava ao meu lado
ritmando meus passos e movimentos.
Sentei, silenciei e abandonei os referenciais
os ambientes, os cômodos, as portas, os objetos
não eram mais percebidos
sumiram.
Tudo se converteu em um grande nada.
Ainda assim, continuei ali
sentado
imóvel
estático
porém, vivo e alerta
respiração serena
sem medo
sem arrepios
sem ofegância
só silêncio, eu e a escuridão que me envolvia
Olhar em derredor
de repente, tudo foi se apresentando novamente
os espaços, os contornos, os detalhes antes visto
tudo voltou a se apresentar como outrora
ainda que vestidos de outros tons.
A escuridão só existe
no instante da travessia
entre as luzes acesas e apagadas
A escuridão só existe
para o ser que se ver apartado
morto por dentro e vivo por fora
pois, vida e morte
são extremos de uma mesma substância.
Há nitidez em ambas as formas
luzes e sombras
basta apenas que tenhamos
licenças e credenciais
de acessos aos dois mundos.
Ali sentado, enquanto olhava no escuro
me vi, nos primordios, em um canto da caverna
de cócoras, sedento, assustado
coração e pulso em descompasso.
Algo em mim não entendia
como consegui sair daquela caverna
apenas tenho clareza que sair
pois, se consigo, do lugar onde estou
me ver lá em um passado desconhecido
sombrio e distante
hesitante e conflitivo
é porque removi as pedras.
Se olho do presente para o passado
e me vejo, certamente, rompi a fronteira
alcancei, ainda que não saiba como,
rasgar a cortina e o véu
que separa os dois instantes
luz e sombra.
As luzes da modernidade
adestraram nosso olhar
assim penso e sinto
para um mundo de claridade artificial
e, quando, esse mesmo olhar
é posto diante da escuridão humana
o olho se ofusca
ele se perde
se assusta
se apavora
feito filho abandonado
criado em lar alheio
perdemos o referencial de origem:
do torrão
das raízes
da família
de si mesmo
do nosso lugar no cosmo.
Deixo aqui minha lição.
Dedo no interruptor
apague as luzes
sente e mantenha olhos
abertos e atentos
apenas se permita olhar
a escuridão em volta
que surpresa não será a sua
quando notar que o outro
diante de ti, sentado ao seu lado
face a face
em uma caverna escura
é você. E dizendo a si mesmo.
- Há quanto tempo?!
Que surpresa não será
quando perceber que na escuridão
não há leões
mas, sim, você
e o registro de toda sua vida
e seus embates com a realidade.
Doravante, à noite
independente de onde estiver
apage as luzes
e acenda uma vela
de preferência
uma que dure
uma que queime
dia e noite.
José Ailton Santos
Como lenha seca, que não faz fumaça, estimula o fogo e faz clarão, acenderam minhas ideias uma canção, alguns livros e seus respectivos autores abaixo descritos:
*Uma canção dos anos 80 do século passado, Morto por Dentro, dos compositores: Elcio Neves Borges, Iara Fortuna e Paraíso; popularizada na voz do cantor Barrerito.
*O médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson
*O homem e seus símbolos de Carl Jung.
*A caminho da Luz, psicografia de Chico Xavier pelo espirito Emmanuel.
*Isis sem véu de autoria de Helena P. Blavatsky
*Luz no caminho de Mabel Collins
* O Mito da Caverna de Platão, contido no livro A República
* A interpretação dos Sonhos de Sigmund Freud.