segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O HOMEM E O DEDO DE DEUS


Estrela e Céu

Janela e Amor

Verão e Inverno

Outono e Primavera

Coração e Resposta

Criatura e Criador

Barro e Artesão

Madeira e Marceneiro

Passado e Futuro

Presente e Dádiva

Chuva e Sabedoria

Sol e Discernimento

Vida e Morte

Barco e Mar

Norte e Sul

Leste e Oeste

Nota e Melodia

Trivial e Eterno

Ontem e Amanhã

Hoje e Sempre 

Pregador e Discípulo 

Silêncio É oração.



José Ailton Santos




quinta-feira, 16 de abril de 2026

UM RETRATO DO BRASIL: NA TAVERNA* NEM TODOS SÃO ALVO DE PIADA.


Imagem resultado de inteligência artificial, e, em associação com o texto, serve como alegoria para representar ideias abstratas. 


 

STANCZYK: - Amigos, o bar vai fechar.


TRIBOULET: - Sabe por que os banguelas

vão direto para o céu?

WILL SOMMERS: - Não, por quê?

TRIBOULET: - Simples, porque o inferno

é lugar de choro e ranger de dentes.

 

STANCZYK: - Amigos, o bar vai fechar.

 

WILL SOMMERS: - Ah, tá bom.

E você sabe por que os mudos

não tem o benefício da dúvida

em nenhum tribunal

terreno ou celeste?

TRIBOULET: - Não, por quê?

WILL SOMMERS: - Simples, por que quem cala consente.

 

STANCZYK: - Amigos, o bar vai fechar.

 

TRIBOULET: - Certo, entendi.

E você sabe por que os lisos

são os caras mais corajosos do mundo?

WILL SOMMERS: - Não, por quê?

TRIBOULET: Simples, porque quem nada tem nada teme.

 

STANCZYK: - Amigos, o bar vai fechar.

 

WILL SOMMERS: - Ah, bom.

E você sabe por que os cornos e as cobras

tem algo em comum?

TRIBOULET: - Não, por quê?

WILL SOMMERS: - Simples, 

chifre em homem e pé de cobra

ninguém nunca viu.

 

STANCZYK: - Amigos, o bar vai fechar.

 

TRIBOULET: - Hum, sei.

E você sabe por que as loiras

quando veem uma égua e um jegue

toma a bênção?

WILL SOMMERS: - Não, por quê?

TRIBOULET: - É simples, porque eles são seus pais.

 

STANCZYK: - Amigos, o bar vai fechar.

 

WILL SOMMERS: - Poxa, é mesmo?

TRIBOULET: - Traga a saideira!

 

STANCZYK: - Desculpem, amigos

mas não vou servir a saideira

preciso mesmo fechar o bar.

 

TRIBOULET e WILL SOMMERS:

- Já, por quê?

 

STANCZYK : - Porque estou com receio de vocês perguntarem por que os ladrões e corruptos se intimidam diante dos Reis**?

 

TRIBOULET e WILL SOMMERS:

- Tá aí, não sabemos, por quê?

STANCZYK: - Simples, pela mesma razão que os leõezinhos se aquietam diante do Rei da selva.

São todos da mesma espécie, mas existe uma hierarquia de poder.

 

 

TRIBOULET e WILL SOMMERS:

- Putz! Veja a conta rápido!

 

STANCZYK: - Por que a urgência?

Por que estão levantando?

Por que, agora, estão querendo ir tão rápido?

 

TRIBOULET e WILL SOMMERS:

- Simples, porque a gente bebe

e você que perde a noção.

 


José Ailton Santos



* Associação do Brasil com a Taverna d'el Rey, uma casa tradicional, que fica localizada no bairro de Alfama, em Lisboa, oferece cozinha regional portuguesa e é um local conhecido pela sua ambientação típica e histórica.

** O Rei no poema é uma referência a todos aqueles em nosso país que estão ou se colocam acima da lei e da justiça.



domingo, 12 de abril de 2026

O RIO QUE CHORA


Um rio é como um ser humano:

eles nascem chorando

e, com o tempo,

as lágrimas secam.

As razões de ambos são análogas

onde antes escorriam gotas

feito vidraça em dia chuvoso

com o tempo as lágrimas desaparecem

e se tornam rios de abundância e discordia.

A fonte vira deserto.

 

O pranto é correnteza

cursos d’água veloz

e quando vem, traz o peso:

dor

desastre

afogamento.

 

As lágrimas descem feito rio revolto

removendo tudo à sua frente

as barragens, os abrigos

as pessoas, as posses

as plantações, os sentimentos

e intenções.

 

Num primeiro olhar

o rio é culpado

pela intensidade das suas águas

o humano é culpado

pelas lágrimas que rolam

criando correntes perigosas

que arrastam:

ilusões

plantações

amores

produtores.

Tudo devastado,

os silos

os afetos...

 

A realidade

mascarada de tragédia

esconde os lenços

esconde as margens

esconde as paredes e portas

esconde o assoreamento e contaminação

que oprimem e repressam.

 

Os leitos ressequidos

prolongadamente compelidos:

mudar a rota

mudar a extensão

mudar a natureza

mudar a essência.


As intervenções profundas

expõe as fraturas

expõe as linhas vermelhas

cruzadas milhares de vezes.


A Lua muda de fase

o rio muda seu curso

as pessoas mudam com o tempo

e, não mais suportando,

brotam, eclodem, emergem 

vulção em chamas.


Descortinam o teatro

paciência não é fraqueza.

compreensão não é subserviência.

 

Quando alguém chora

é um rio que transborda

retomando aquilo que é seu

trazendo tudo de volta

                          sua extenção natural

                seus limites de origem

         seu riso que é foz

     sua essência

seu amor.

 

Um rio, tal qual uma pessoa,

jamais chora pelo que aparenta.

Suas vias lacrimais

sua rede de glândulas

seus sacos e ductos

estão para além da aparência

para além do visível.

 

Sua fúria se alicerça

em cada silêncio imposto

em cada dor não chorada.


No devido tempo

toda moeda para de girar.

 

O rio e o ser humano,

nasceram para o fluxo

existem para exercer sua natureza.


Há uma máxima certeira:

a natureza é mais sabia

que toda a humanidade.


Ah, quão ingenuo é o ser

em tentar, domá-la, subjulgá-la...


Não tardará o dia

que a resistência virá

armada com sua força

e arma mais poderosa

o desabafo em forma de lágrimas

gotas, anunciando nascimento

choro, anunciando a vida.

 

Lágrimas e rios

não se estancam

pressões

estruturas

manutenções

vão ruir.

Porque atalhos não são caminhos.




José Ailton Santos

domingo, 5 de abril de 2026

O LABIRINTO DO FAUNO OU UM QUARTO DE MANICÔMIO?


Shmuel Javert comprou alguns livros no intento de num futuro próximo ler cada página, contudo rotinas e distrações o fizeram esquecê-los na estante. As indicações dos exempalheres vieram por diferentes fontes, mas sempre sobre temas recorrentes e que atiçavam ultimamente sua curiosidade, a saber, a língua dos números, os diálogos dos astros, exoterismo, esoterismo, angelomaquia, cosmogonia... Estavam todos ainda plastificados, ocorre que, ultimamente Shmuel Javert tem sentido um impulso violento em direção aos livros. Rasgou as embalagens e deu início às leituras. À medida em que os lia, a necessidade de continuar crescia como se alguém estivesse pegando em sua mão e lhe direcionando um caminho, a cada conjunto de passos que dava nas leituras se deparava com uma charada, um saber desconhecido, uma porta sem fechadura, um mundo ilógico. 

Acreditava que algo: uma energia, uma força, um ser, um espiríto; desceu de seu habitual nível de consciência para estabelecer diálogo com ele, acreditava que a descida certamente ocorreu para que esses diálogos pudessem ser compreensíveis. Ignorante que era, pois até aquela altura da vida não tinha respostas as perguntas mais básicas, o que ou quem ele era? Shmuel questionava a todos sobre essas mesmas dúvidas e acreditava que aqueles dentre os seus que não tinha as mesmas dúvidas quanto a estas perguntas, certamente, encontravam-se em um nível acima do seu em entedimento ou, certamente, ocupava um assento mais próximo do mestre.

Shmuel Javert ia a diferentes pessoas no intuito de compartilhar alguns eventos e torcer que entrassem em interação com ele e o ajudasse a entender melhor os eventos. Certa vez, foi a uma igreja e contou a um padre um evento que lhe acontecera. Falou que leu um livro e um pensamento presente na obra lhe fez recorrer a referência do autor, e essa o levou até um outro livro; comprou-o e leu. Nesse livro cheguou a indicação de um outro autor, comprou algumas obras dele e leu compulsivamente. Das páginas lidas eclodiu uma das lições que se fixaram em sua cabeça, a de que, quando um discípulo estiver pronto o mestre se apresentará a ele. Mas, quais são os sinais desta chegada, questionava Shemuel Javert? O livro também dizia, fatos, eventos e coisas aleatórias chegarão até você preparando-o para o momento. 

Uma certa manhã, Shemuel Javert acordou e ao pesquisar algo na internet chegou no rolo da pesquisa uma obra cujo título é desconhecido do público leitor comum. Leu o livro e viu que lhe trazia resposta - ao menos resposta para o lugar onde se encontrava, ao nível que ocupava sua mente e compreensão - a várias das suas dúvidas recorrentes. Esse acontecimento aleatório, certamente, motivava e fazia crescer sua crença que havia ingressado em uma espécie de aula, caminhada existencial ou amizade astral. Diante de tantas respostas, ele se colocava em dúvida, afinal não podia se confundir com seus próprios pensamentos.

Passados mais alguns dias, um amigo lhe presenteou com um novo livro. Shmuel Javert pensou, não tem como não associar esse evento ao conjunto dos acontecimentos. Ao ler o título, perguntou ao amigo: - porque esse livro e não outro? Ao que ouviu: - estava em uma biblioteca foleando livros e, de repente, peguei esse livro, li algumas págimas e lembrei de você, então a lembrança repentina me fez comprar o livro para presenteá-lo. Mas, por que a motivação lhe interessa, perguntou de volta o amigo? Shmuel Javert desconversou e agradeceu o presente do amigo há muito ausente. O livro falava de magias, rituais, poderes ocultos... e o mais interessante, ao longo das páginas o autor ia conversando e alertando Shmuel Javert, se esse estava preparado para avançar com a leitura.

Ao longo da leitura do livro, Shmuel Javert reavaliava sua existência e o uso que tinha feito dela, pois ele sabia e sentia que nasceu com uma inteligência e um dom para o debate e a persuasão, contudo percebeu que não tinha feito bom uso dela, usou caprichosamente para sua vaidade e diferentes usos negativos, muitas vezes estimulando pessoas a desenfreadas discussões. Estava convicto, que havia jogado fora [até agora] o seu talento em troca de uma vida de egoísmo, preguiça e prazeres. Como resultado, perdeu todo o respeito dos demais e nem ele mesmo se respeitava mais. Aqui, é possível perceber que estava ocorrendo uma virada de chave na mente de Shmuel Javert. 

Pela primeira vez, essa consciência e comportamento lhe pareceu intolerável. Doravante, ocorreu-lhe que poderia e deveria usar todas as suas forças e se empenhar em usar seus dons naturais para um melhor uso. Afinal, pensava ele, não se pode efetuar mudanças permanentes em uma vida a menos que a pessoas mude sua consciência, pois o que nasce e se nutre de uma mente doente, acaba por tomar forma no mundo físico. E, não se trata de castigo, mas de um fato científico da existência. Qualquer coisa contraria ao bem-estar nasce primeiro na consciência humana e, só depois, toma forma dentro da experiência. Shmuel Javert se pegou desenvolvendo ideias nunca antes refletidas.

Sentia-se feito Cristo nas seis semanas no deserto, pois passou por um período de limpeza da sua consciência humana, extirpou velhas crenças e preconceitos, tudo dissolvido. Estabeleceu para si uma  nova consciência, sentia, via, percebia, compreendia, tudo mais ampla, límpida e claramente. Novos conceitos se desenrolavam diante dele, como se fosse um tapete que se abre em sua extensão plena. Descobriu que todas as necessidades humanas foram fixadas de modo a serem satisfeitas. Enquanto se estabelecia aquele dialogo, entre Shmuel Javert e seu mentor, alguns exemplos emeriram; a arcada dentária dos mamíferos reune dentes para cortar, perfurar e mastigar os alimentos, e dependendo das especificidades esses podem ser menos ou mais desenvolvidos, potentes...

Os olhos tinham cílios para sua necessidade de proteção, os corpos tinham pêlos para suprir necessidades... tudo estava posto e organizado para nossa sobrevivência e continuidade, ou seja, dentro desta percepção Shmuel Javert percebeu que não há razão para nos preocuparmos com nada. De modo semelhante, tudo que é vivo cresce, é um princípio invariável. Shmuel Javert via claramente tudo em essência, via para além das cores e formas, compreendia as estruturas e funções, mas ainda se angustiava, pois anciava em saber os porquês, para ele essa era a mola mestra de tudo, entender os porquês.

Shmuel Javert percebeu que havia um código que blindava os porquês do saber universal, essa blindagem se dava em forma de camadas crescentes de dificuldade e merecimento. Números, dias, estações, astros, anjos, arcanjos, letras... tudo de emaranhava em uma forma de texto cifrado, uma mensagem que se transmitia de boca a ouvido apenas para os escolhidos. Doze tribos, doze signos, quatro elementos, quatro estações, sete notas musicais, sete astros de influência, vinte e quatro horas hierarquicamente organizadas por força e poder, letras que são chaves que abre portais. Um oceano se abriu diante de Shmuel Javert, viu-se perdido à medida que mergulhava, cada vez mais fundo novos mundos se abriam, viajava no universo infinito, galaxia pós galaxia se abria diante da sua mente em expansão. 

Shmuel Javert mirou tão intensamente para o abismo que esse o olhou de volta. E igualmente um artista circense que se equilibra em uma corda bamba, Shmuel sabia que se acaso se inclinasse demais na corda bamba poderia não ser capaz de voltar ao ponto de equilibrio. E em queda livre caiu no abismo, ignorando a mesma regra de outro que o antecedeu em tempos remotos, que desejava para si e para ninguém mais as glórias. Shmuel Javert simboliza a máxima: nem tudo é permitido ao homem conhecer.



José Ailton Santos

OS GRÃOS DE DEMÉTER



Era uma planta exuberante

ficava em um canto iluminado

em lugar de destaque

plantada em vaso fino

de cerâmica de alta qualidade.


Era uma planta vaidosa

que necessitava de validação

e sempre exigia ter a última palavra


Interrompi a irrigação regular

parei de aspergir água sobre as pétalas

escravidão inconsciente 

estava submetido

estava subjugado

acorrentado as pressões sociais

sufocado, rompi o ciclo.


Silêncio...


Os lábios selados 

são a principal ferramenta de trabalho

de quem lutou e foi derrotado 

inumeras batalhas

mas, no final, venceu a guerra

a maior de todas, a interna, 

aquela que travamos contra a sombra

não há inimigo mais complexo e difícil

do que você mesmo.


Hoje, estou cônscio que

o alimento daquela planta

não era água 

não era o solo

não era o vaso

eram as vaidades

eram os olhares

eram os aplausos

eram os elogios


O definhar da planta

causava estranhamento

sentia-me sem um membro

vínculos rompidos

caos emocional

sofrimento profundo

luto

vazio


Seca e sem vida

joguei fora a planta

joguei fora o vaso

liberei o espaço 


Redirecionei as luzes,

onde antes ecoavam vozes

agora, habita um vazio ensurdecedor

onde havia palavras e discursos

há somente reposicionamento.


Existe em tudo uma autoridade

interna e externa

legítima e instituída

legal e natural.


O Rei tem força e poder sobre os outros

O Mago tem apenas autoridade sobre si


Certo dia 

passos distraídos

e, de repente, me deparei

com a planta de outrora

velha conhecida de tempos outros

em terreno alheio

exercendo seu poder

vivaz, expandida, exuberante

escravizando outros.


Ali, a verdade se desnudou

- feito grãos maduros que alegra a colheita.

Não existe vazios na natureza

um espaço desocupado 

sempre será preenchido 

Você jamais extermina um desejo

apenas o substitui por outro.

O desejo vencido 

habitará em outro

[ser ou lugar].


A vida é sobre mitos e símbolos

desvendá-los é dá sentido a vida

pois, essa por si mesma não tem sentido.

O sentido aflora:

da alma

do coração 

do espírito

dos grãos que germina 

do solo fértil de Deméter. 


José Ailton Santos

quinta-feira, 26 de março de 2026

O HOMEM E A CAVERNA


Descobrir que se vivesse 

nos tempos das cavernas

estaria lá até hoje

não por apego, e sim por medo.


Se fosse um dos raros ancestrais

nos primordios da humanidade

habitando em cavernas

não chegaríamos até aqui

ao menos, não por meu mérito

pois não seria capaz de abandonar

o "lugar seguro"

o mundo conhecido

o meu referencial

o meu mapa...

para ousar dar passos no escuro.


Sempre que resolvo apagar as luzes 

tenho a sensação que alguém

em um canto escuro me espreita

algo me acompanha sem que perceba

sei porque minha intuição me alerta

isso me deixa, 

instável e inseguro.

Então:

arrepios

medo 

pavor

taquipneia...

não resisto a escalada

daí, dedo no interruptor.

Luzes, ufa!


Hoje, ao chegar em casa

uma coragem pulsava

dentro de mim

algo em meu interior

queria sentir/enfrentar aquela escuridão.

Dedo no interruptor,

luzes cessaram 

penumbra total

gritos no coliseu 

e na arena, uma batalha de gladiadores.


Senti que algo 

que antes me olhava

continuava mirando em mim.

Algo que me seguia

sem ser percebido

continuava ao meu lado

ritmando meus passos e movimentos.


Sentei, silenciei e abandonei os referenciais

os ambientes, os cômodos, as portas, os objetos

não eram mais percebidos

sumiram.

Tudo se converteu em um grande nada.


Ainda assim, continuei ali

sentado

imóvel

estático

porém, vivo e alerta

respiração serena

sem medo

sem arrepios

sem ofegância

só silêncio, eu e a escuridão que me envolvia


Olhar em derredor

de repente, tudo foi se apresentando novamente

os espaços, os contornos, os detalhes antes visto

tudo voltou a se apresentar como outrora

ainda que vestidos de outros tons.


A escuridão só existe

no instante da travessia

entre as luzes acesas e apagadas


A escuridão só existe 

para o ser que se ver apartado

morto por dentro e vivo por fora

pois, vida e morte 

são extremos de uma mesma substância.

Há nitidez em ambas as formas

luzes e sombras

basta apenas que tenhamos 

licenças e credenciais 

de acessos aos dois mundos.


Ali sentado, enquanto olhava no escuro

me vi, nos primordios, em um canto da caverna

de cócoras, sedento, assustado 

coração e pulso em descompasso.


Algo em mim não entendia

como consegui sair daquela caverna

apenas tenho clareza que sair

pois, se consigo, do lugar onde estou

me ver lá em um passado desconhecido

sombrio e distante

hesitante e conflitivo

é porque removi as pedras.

Se olho do presente para o passado

e me vejo, certamente, rompi a fronteira 

alcancei, ainda que não saiba como,

rasgar a cortina e o véu

que separa os dois instantes

luz e sombra.

 

As luzes da modernidade

adestraram nosso olhar

assim penso e sinto

para um mundo de claridade artificial

e, quando, esse mesmo olhar

é posto diante da escuridão humana

o olho se ofusca

ele se perde

se assusta

se apavora

feito filho abandonado

criado em lar alheio

perdemos o referencial de origem:

do torrão

das raízes

da família

de si mesmo

do nosso lugar no cosmo.


Deixo aqui minha lição.


Dedo no interruptor

apague as luzes

sente e mantenha olhos 

abertos e atentos

apenas se permita olhar 

a escuridão em volta

que surpresa não será a sua

quando notar que o outro 

diante de ti, sentado ao seu lado

face a face

em uma caverna escura

é você. E dizendo a si mesmo.

- Há quanto tempo?!


Que surpresa não será

quando perceber que na escuridão

não há leões

mas, sim, você

e o registro de toda sua vida

e seus embates com a realidade.


Doravante, à noite

independente de onde estiver

apage as luzes

e acenda uma vela

de preferência

uma que dure

uma que queime

dia e noite.


José Ailton Santos


Como lenha seca, que não faz fumaça, estimula o fogo e faz clarão, acenderam minhas ideias uma canção, alguns livros e seus respectivos autores abaixo descritos:

*Uma canção dos anos 80 do século passado, Morto por Dentro, dos compositores: Elcio Neves Borges, Iara Fortuna e Paraíso; popularizada na voz do cantor Barrerito.

*O médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson

*O homem e seus símbolos de Carl Jung.

*A caminho da Luz, psicografia de Chico Xavier pelo espirito Emmanuel.

*Isis sem véu de autoria de Helena P. Blavatsky

*Luz no caminho de Mabel Collins

* O Mito da Caverna de Platão, contido no livro A República

* A interpretação dos Sonhos de Sigmund Freud.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

BATALHA CONTRA A MORTE*



Mais fácil 

é sentar em poltrona confortável

e escrever relatos sensacionais 

de quem venceu a morte.


Mais fácil 

é descrever enfermidades 

do que enfrentá-las e vencê-las.


Menos perigoso 

é inventar intrigas

é fantasiar horrores

do que ser vítima deles 

e sobreviver para contar.


Os escritores de hoje,

conduzem seu leitores

por áreas:

pobres

periféricas

penumbras...

e raras vezes

vão ali

quiçá pisaram o pé nesses lugares.


Os especialistas em:

aflições

chagas

desgostos

doenças

infortúnios

mazelas

mortes...

raras vezes

entram em hospitais

frequentam cemitérios

pois, ao pisarem nestes lugares

seu heroismo os abandonam

jazem sepultados.


Poetas

Filósofos 

Políticos

Médicos...

todos edificam odes

saudando a morte.

Todavia,

tremem, empalidecem e correm

só de ouvirem falar do nome

dessa melhor amiga.


Em contraposição

aos caminhos fáceis 

lutaram muito 

Miguel Ângelo** e Vasari***

contra a sinistra amiga

e foram ambos vencidos.

Esses devotados guerreiros 

viram derrotados

um a um os esforços 

e tantos quantos quiseram defender 

foram acorrentados e cortados

pela colheitadora de vidas

ceifados pela foice**** de almas humanas.


É uma batalha que só há um vencedor

independente de quem se candidate

todos serão subjugados

não importando se quem luta

senta em trono de ouro 

ou aqueles em cuja sepulturas 

não há cruz de mármore.


Há entre os gladiadores 

os que tentam se manter vivos

ainda que na memória coletiva 

bem como aqueles

que já estavam esquecidos

antes da própria morte.



José Ailton Santos



* O título e o texto foram inspirador por alguns textos lidos, a saber, alguns livros bíblicos, O livro de San Michele - Axel Munthe, O Banquete - Platão, A Morte de Ivan Ilitch - Liev Tolstói e alguns poemas de Augusto dos Anjos, Clarice Lispector e Fernando Pessoa.

* *Miguel Ângelo Buonarroti [1475-1564], maior artista da sua época nas artes.

*** Giorgio Vasari [1511-1574], alguém fundamental para a história da arte e admirador e biografo da genialidade do personagem acima.

**** Assim como um agricultor usa a foice para ceifar grãos maduros, a figura da morte usa a ferraenta para colher almas, não importando idade, sexo ou mérito. A imagem da foice sugere que a morte é um agente ativo, que igualmente um agricultor, remove os seres humanos do mesmo modo que separa os grãos do solo.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ORAÇÃO DO HOMEM VIGILANTE


 
Senhor, proteja-me dos meus amigos

que dos meus inimigos, cuido eu.

[voltaire, 1694-1778]


Conselho de um pai para um filho:

- Se vir o rio subindo o morro

é sinal de que alguém

está retribuindo uma gentileza.

[Conto folclórico africano]


Recado para alguém chegar no topo.

- Esse é o posto:

de menos poder 

de menos segurança

de menos...

pois todos nos níveis abaixo

desejam tirá-lo de lá.

[Ditado chinês]


Apresento-lhe uma lei imutável.

- Os homens apressam-se mais 

a retribuir um dano

do que um benefício

porque a gratidão é um peso

e a vingança, um prazer.

[Tácito, C. 55-120 d.C.]


Um conselho para quem atrai o sucesso.

- Via de regra, você destrói seus inimigos

quando os tornam amigos.

Mas se não queres atrair a ruína

seja vigilante para o contrário não acontecer.

[Abraham Lincoln, 1809-1865]


Por fim, um conselho para se manter velhos amigos.

- Eu o digo. Bons amigos só existem

enquanto existem interesses

[de um dos lados ou de ambos]

Pobres não são amigos de ricos

Tolos não são amigos dos sábios

Covardes não são amigos dos corajosos

Um velho amigo, quem precisa deles?

[Conto Mahabarata, séc. III a. C.]


Aqui vão as palavras deste missivista

minha humilde contribuição a esta oração.

Como sou um esforçado seguidor de Cristo,

teimo, costumeiramente, 

em ignorar as lições acima.

 

Eu sinto em meu íntimo

que se a humanidade 

desejasse voar e desenvolver asas

para atingir tal intento

bastaria acreditar com todas as entrenhas

com as forças que se escondem

atrás das portas secretas do coração

poderia fazê-lo,

assim penso e sinto


E, quando isso acontecer

certamente, algo adicional

comecaria a se desenvolver 

para que pudessemos voar.


Todavia, enquanto,

[do nascimento até a morte]

continuarmos nos condicionando 

em acreditar apenas

no mundo que capturamos 

pelos nossos cinco sentidos:

audição

olfato

paladar

tato

visão


Melhor levar em conta 

as lições dos homens e contos

supramencionados

ou se converter em Argos Panoptes*


José Ailton Santos



* Argos Panoptes [do grefo PAN "tudo" e OPTES "olho/visão"] significa "aquele que tudo ver", refere-se a um gigante de cem olhos conhecido por sua vigilância perpétua, isso o tornava um guadião perfeito, ele podia olhar em todas as direções, ainda que seus olhos estivessem fechados.

 

domingo, 4 de janeiro de 2026

O ÚNICO QUE AMA*


Para dominar era preciso:

bravura

valentia

punhais e espadas.

Erro bobo de um estágio natural.


Se nós o possuímos 

que nos importa

o que acontece aos outros?

Ideia de posse e único desejo:

rude

silvestre

indomesticável.


Ele nos assiste a todos

de modo perpétuo

possuídos e possuidores.

Todos, repetindo os mesmos padrões:

Crueldade

Egoísmo

Orgulho

Sexualidade violenta


Ele é assim,

quanto mais queremos possuir

mais fortemente somos possuídos.

Quanto menos livres somos

mais atados e acorrentados seremos.

E da ausência de discernimento:

Agonia

Angústia

Amargura

Mágoa

Padecimento

Ressentimentos

Tortura...


Quanto mais anelamos reter

mais somos afastados.

Daí nasce: 

Apatia

Desalento

Desilusão 

Frustação


Nas trevas,

imperava o sentimento 

que nossa vontade e desejo

eram supremos. Consequentemente,

víamos todos os que se opunham esmagados.


No fulgor, 

sentimento que o outro

tem vontades e mesmo assim

impulsiona-o, ajuda-o a regar.

Sentimento que a árvore que rego

teima em expandir os galhos e frutos

para o quintal do vizinho

e, ainda assim, continuar regando.


A emancipação vem, quando:

somos livres para caminhar

sem a preocupação 

de sermos ou não seguidos.

E tudo bem,

se o outro se inclina na direção oposta.


Muita água correu pelas pedras 

e levou consigo muita sujeira.

O clarão voltou a brilhar 

e nos mostrou 

o que possuíamos:

sombras e substâncias

ambas semelhantes a fogos de artifícios

que só brilharam por um instante:

fugaz

efêmero

estrela cadente.

E se dissipou 

nos deixando despidos e sozinhos.


O Único que ama

nos ensima a descobri-lo

através de suas dádivas.

E Ele nasce do que distribuímos

e não do que guardamos.


Parece estranho 

mas o pássaro que melhor canta

não vive em casa dourada.

E sim, aquele que habita uma gaiola

com alimento saudável

água limpa e fresca

e, especialmente, de porta aberta.



JOSÉ AILTON SANTOS


*Uma singela homenagem a Krishnamurti e ao seu texto, Aos pés do Mestre.