Um rio é como um ser humano:
eles nascem chorando
e, com o tempo,
as lágrimas secam.
As razões de ambos são análogas
onde antes escorriam gotas
feito vidraça em dia chuvoso
com o tempo as lágrimas desaparecem
e se tornam rios de abundância e discordia.
A fonte vira deserto.
O pranto é correnteza
cursos d’água veloz
e quando vem, traz o peso:
dor
desastre
afogamento.
As lágrimas descem feito rio revolto
removendo tudo à sua frente
as barragens, os abrigos
as pessoas, as posses
as plantações, os sentimentos
e intenções.
Num primeiro olhar
o rio é culpado
pela intensidade das suas águas
o humano é culpado
pelas lágrimas que rolam
criando correntes perigosas
que arrastam:
ilusões
plantações
amores
produtores.
Tudo devastado,
os silos
os afetos...
A realidade
mascarada de tragédia
esconde os lenços
esconde as margens
esconde as paredes e portas
esconde o assoreamento e contaminação
que oprimem e repressam.
Os leitos ressequidos
prolongadamente compelidos:
mudar a rota
mudar a extensão
mudar a natureza
mudar a essência.
As intervenções profundas
expõe as fraturas
expõe as linhas vermelhas
cruzadas milhares de vezes.
A Lua muda de fase
o rio muda seu curso
as pessoas mudam com o tempo
e, não mais suportando,
brotam, eclodem, emergem
vulção em chamas.
Descortinam o teatro
paciência não é fraqueza.
compreensão não é subserviência.
Quando alguém chora
é um rio que transborda
retomando aquilo que é seu
trazendo tudo de volta
sua extenção natural
seus limites de origem
seu riso que é foz
sua essência
seu amor.
Um rio, tal qual uma pessoa,
jamais chora pelo que aparenta.
Suas vias lacrimais
sua rede de glândulas
seus sacos e ductos
estão para além da aparência
para além do visível.
Sua fúria se alicerça
em cada silêncio imposto
em cada dor não chorada.
No devido tempo
toda moeda para de girar.
O rio e o ser humano,
nasceram para o fluxo
existem para exercer sua natureza.
Há uma máxima certeira:
a natureza é mais sabia
que toda a humanidade.
Ah, quão ingenuo é o ser
em tentar, domá-la, subjulgá-la...
Não tardará o dia
que a resistência virá
armada com sua força
e arma mais poderosa
o desabafo em forma de lágrimas
gotas, anunciando nascimento
choro, anunciando a vida.
Lágrimas e rios
não se estancam
pressões
estruturas
manutenções
vão ruir.
Porque atalhos não são caminhos.

Bom dia! É da sua autoria essa reflexão em gorma de poema?
ResponderExcluirObrigado por sua atenção e pelo comentário. Todos os escritos do blog são de autoria das vozes que ecoam na mente deste escrevinhador e das minhas vivências (desta de outras vidas).
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