Acreditava que algo: uma energia, uma força, um ser, um espiríto; desceu de seu habitual nível de consciência para estabelecer diálogo com ele, acreditava que a descida certamente ocorreu para que esses diálogos pudessem ser compreensíveis. Ignorante que era, pois até aquela altura da vida não tinha respostas as perguntas mais básicas, o que ou quem ele era? Shmuel questionava a todos sobre essas mesmas dúvidas e acreditava que aqueles dentre os seus que não tinha as mesmas dúvidas quanto a estas perguntas, certamente, encontravam-se em um nível acima do seu em entedimento ou, certamente, ocupava um assento mais próximo do mestre.
Shmuel Javert ia a diferentes pessoas no intuito de compartilhar alguns eventos e torcer que entrassem em interação com ele e o ajudasse a entender melhor os eventos. Certa vez, foi a uma igreja e contou a um padre um evento que lhe acontecera. Falou que leu um livro e um pensamento presente na obra lhe fez recorrer a referência do autor, e essa o levou até um outro livro; comprou-o e leu. Nesse livro cheguou a indicação de um outro autor, comprou algumas obras dele e leu compulsivamente. Das páginas lidas eclodiu uma das lições que se fixaram em sua cabeça, a de que, quando um discípulo estiver pronto o mestre se apresentará a ele. Mas, quais são os sinais desta chegada, questionava Shemuel Javert? O livro também dizia, fatos, eventos e coisas aleatórias chegarão até você preparando-o para o momento.
Uma certa manhã, Shemuel Javert acordou e ao pesquisar algo na internet chegou no rolo da pesquisa uma obra cujo título é desconhecido do público leitor comum. Leu o livro e viu que lhe trazia resposta - ao menos resposta para o lugar onde se encontrava, ao nível que ocupava sua mente e compreensão - a várias das suas dúvidas recorrentes. Esse acontecimento aleatório, certamente, motivava e fazia crescer sua crença que havia ingressado em uma espécie de aula, caminhada existencial ou amizade astral. Diante de tantas respostas, ele se colocava em dúvida, afinal não podia se confundir com seus próprios pensamentos.
Passados mais alguns dias, um amigo lhe presenteou com um novo livro. Shmuel Javert pensou, não tem como não associar esse evento ao conjunto dos acontecimentos. Ao ler o título, perguntou ao amigo: - porque esse livro e não outro? Ao que ouviu: - estava em uma biblioteca foleando livros e, de repente, peguei esse livro, li algumas págimas e lembrei de você, então a lembrança repentina me fez comprar o livro para presenteá-lo. Mas, por que a motivação lhe interessa, perguntou de volta o amigo? Shmuel Javert desconversou e agradeceu o presente do amigo há muito ausente. O livro falava de magias, rituais, poderes ocultos... e o mais interessante, ao longo das páginas o autor ia conversando e alertando Shmuel Javert, se esse estava preparado para avançar com a leitura.
Ao longo da leitura do livro, Shmuel Javert reavaliava sua existência e o uso que tinha feito dela, pois ele sabia e sentia que nasceu com uma inteligência e um dom para o debate e a persuasão, contudo percebeu que não tinha feito bom uso dela, usou caprichosamente para sua vaidade e diferentes usos negativos, muitas vezes estimulando pessoas a desenfreadas discussões. Estava convicto, que havia jogado fora [até agora] o seu talento em troca de uma vida de egoísmo, preguiça e prazeres. Como resultado, perdeu todo o respeito dos demais e nem ele mesmo se respeitava mais. Aqui, é possível perceber que estava ocorrendo uma virada de chave na mente de Shmuel Javert.
Pela primeira vez, essa consciência e comportamento lhe pareceu intolerável. Doravante, ocorreu-lhe que poderia e deveria usar todas as suas forças e se empenhar em usar seus dons naturais para um melhor uso. Afinal, pensava ele, não se pode efetuar mudanças permanentes em uma vida a menos que a pessoas mude sua consciência, pois o que nasce e se nutre de uma mente doente, acaba por tomar forma no mundo físico. E, não se trata de castigo, mas de um fato científico da existência. Qualquer coisa contraria ao bem-estar nasce primeiro na consciência humana e, só depois, toma forma dentro da experiência. Shmuel Javert se pegou desenvolvendo ideias nunca antes refletidas.
Sentia-se feito Cristo nas seis semanas no deserto, pois passou por um período de limpeza da sua consciência humana, extirpou velhas crenças e preconceitos, tudo dissolvido. Estabeleceu para si uma nova consciência, sentia, via, percebia, compreendia, tudo mais ampla, límpida e claramente. Novos conceitos se desenrolavam diante dele, como se fosse um tapete que se abre em sua extensão plena. Descobriu que todas as necessidades humanas foram fixadas de modo a serem satisfeitas. Enquanto se estabelecia aquele dialogo, entre Shmuel Javert e seu mentor, alguns exemplos emeriram; a arcada dentária dos mamíferos reune dentes para cortar, perfurar e mastigar os alimentos, e dependendo das especificidades esses podem ser menos ou mais desenvolvidos, potentes...
Os olhos tinham cílios para sua necessidade de proteção, os corpos tinham pêlos para suprir necessidades... tudo estava posto e organizado para nossa sobrevivência e continuidade, ou seja, dentro desta percepção Shmuel Javert percebeu que não há razão para nos preocuparmos com nada. De modo semelhante, tudo que é vivo cresce, é um princípio invariável. Shmuel Javert via claramente tudo em essência, via para além das cores e formas, compreendia as estruturas e funções, mas ainda se angustiava, pois anciava em saber os porquês, para ele essa era a mola mestra de tudo, entender os porquês.
Shmuel Javert percebeu que havia um código que blindava os porquês do saber universal, essa blindagem se dava em forma de camadas crescentes de dificuldade e merecimento. Números, dias, estações, astros, anjos, arcanjos, letras... tudo de emaranhava em uma forma de texto cifrado, uma mensagem que se transmitia de boca a ouvido apenas para os escolhidos. Doze tribos, doze signos, quatro elementos, quatro estações, sete notas musicais, sete astros de influência, vinte e quatro horas hierarquicamente organizadas por força e poder, letras que são chaves que abre portais. Um oceano se abriu diante de Shmuel Javert, viu-se perdido à medida que mergulhava, cada vez mais fundo novos mundos se abriam, viajava no universo infinito, galaxia pós galaxia se abria diante da sua mente em expansão.
Shmuel Javert mirou tão intensamente para o abismo que esse o olhou de volta. E igualmente um artista circense que se equilibra em uma corda bamba, Shmuel sabia que se acaso se inclinasse demais na corda bamba poderia não ser capaz de voltar ao ponto de equilibrio. E em queda livre caiu no abismo, ignorando a mesma regra de outro que o antecedeu em tempos remotos, que desejava para si e para ninguém mais as glórias. Shmuel Javert simboliza a máxima: nem tudo é permitido ao homem conhecer.
José Ailton Santos
A maior demonstração no processo de mudança se inicia com a introspecção, segundo Socrates uma vida que não é digna de ser examinada não é digna de ser vivida, segundo Mario Sergio Cortela, todo ser humano deve ter um propósito definido durante sua passagem terrena, diante desta certeza o mesmo faz a seguinte pergunta: como você deseja ser lembrado? Qual será o seu legado? A comprensão da existência humana começa a ganhar novos contornos quando o personagem compreende que a essência humana não pode ser abarcada pela vontade humana, são muitos os prismas e cada um contribui para a concepção do todo. O mundo visto pela ótica humana se resume ao entendimento humano, quando um oftalmologista observa pessoas em um ambiente a primeira busca e análise é pelos olhos, assim como, o dentista irá observar a boca e os dentes, porem, quando o poeta adentra ao espaço, a visão ganha novos contornos, ele busca a compreensão do todo, as partes e a individualização perdem o sentido diante da dimensão do entendimento do mesmo, ambos sobrevivem a sua maneira, nesta complexidade humana ambos concebem o mundo que conhecemos, incompreendido, inabarcavel, inesplicavel...mesmo para Samuel Javert.
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