domingo, 5 de abril de 2026

OS GRÃOS DE DEMÉTER



Era uma planta exuberante

ficava em um canto iluminado

em lugar de destaque

plantada em vaso fino

de cerâmica de alta qualidade.


Era uma planta vaidosa

que necessitava de validação

e sempre exigia ter a última palavra


Interrompi a irrigação regular

parei de aspergir água sobre as pétalas

escravidão inconsciente 

estava submetido

estava subjugado

acorrentado as pressões sociais

sufocado, rompi o ciclo.


Silêncio...


Os lábios selados 

são a principal ferramenta de trabalho

de quem lutou e foi derrotado 

inumeras batalhas

mas, no final, venceu a guerra

a maior de todas, a interna, 

aquela que travamos contra a sombra

não há inimigo mais complexo e difícil

do que você mesmo.


Hoje, estou cônscio que

o alimento daquela planta

não era água 

não era o solo

não era o vaso

eram as vaidades

eram os olhares

eram os aplausos

eram os elogios


O definhar da planta

causava estranhamento

sentia-me sem um membro

vínculos rompidos

caos emocional

sofrimento profundo

luto

vazio


Seca e sem vida

joguei fora a planta

joguei fora o vaso

liberei o espaço 


Redirecionei as luzes,

onde antes ecoavam vozes

agora, habita um vazio ensurdecedor

onde havia palavras e discursos

há somente reposicionamento.


Existe em tudo uma autoridade

interna e externa

legítima e instituída

legal e natural.


O Rei tem força e poder sobre os outros

O Mago tem apenas autoridade sobre si


Certo dia 

passos distraídos

e, de repente, me deparei

com a planta de outrora

velha conhecida de tempos outros

em terreno alheio

exercendo seu poder

vivaz, expandida, exuberante

escravizando outros.


Ali, a verdade se desnudou

- feito grãos maduros que alegra a colheita.

Não existe vazios na natureza

um espaço desocupado 

sempre será preenchido 

Você jamais extermina um desejo

apenas o substitui por outro.

O desejo vencido 

habitará em outro

[ser ou lugar].


A vida é sobre mitos e símbolos

desvendá-los é dá sentido a vida

pois, essa por si mesma não tem sentido.

O sentido aflora:

da alma

do coração 

do espírito

dos grãos que germina 

do solo fértil de Deméter. 


José Ailton Santos

2 comentários:



  1. O texto apresenta uma visão poética e filosófica da vida, sugerindo que o sentido da vida não é algo dado, mas sim algo que é criado e descoberto através da compreensão de mitos e símbolos.

    A menção a Deméter, a deusa grega da agricultura e da fertilidade, sugere que o sentido da vida está relacionado à conexão com a natureza e com as forças que a governam. A imagem do grão que germina no solo fértil de Deméter é uma metáfora para o processo de crescimento e transformação que ocorre na vida.

    O texto também sugere que o sentido da vida não é algo que pode ser encontrado apenas na razão ou na lógica, mas sim no coração, na alma e no espírito. Isso implica que a compreensão da vida requer uma abordagem mais holística e intuitiva, que vai além da simples análise racional.

    Em resumo, o texto apresenta uma visão da vida como um processo de descoberta e criação de sentido, que está relacionado à conexão com a natureza e com as forças que a governam, e que requer uma abordagem mais intuitiva e emocional. Ladja Lima

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  2. O que faz o ferro forte é a têmpera e o que permite a sua transformação é o fogo, é preciso que o mesmo sofra a transformação do fogo para que o cuteleiro consiga moldar o mesmo. A transformação acontece quando algumas situações ocorrem, sem as mesmas o ferro não ganha forma muito menos dureza. Para que a alma humana encontre um porto seguro ela precisa definir e encontrar um lugar de identidade onde seja permitido compartilhar histórias e experiências entre iguais. A ausência do ferro, da marreta e do fogo não permite ao cuteleiro apresentar uma nova versão do ferro.

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