domingo, 4 de janeiro de 2026

O ÚNICO QUE AMA*


Para dominar era preciso:

bravura

valentia

punhais e espadas.

Erro bobo de um estágio natural.


Se nós o possuímos 

que nos importa

o que acontece aos outros?

Ideia de posse e único desejo:

rude

silvestre

indomesticável.


Ele nos assiste a todos

de modo perpétuo

possuídos e possuidores.

Todos, repetindo os mesmos padrões:

Crueldade

Egoísmo

Orgulho

Sexualidade violenta


Ele é assim,

quanto mais queremos possuir

mais fortemente somos possuídos.

Quanto menos livres somos

mais atados e acorrentados seremos.

E da ausência de discernimento:

Agonia

Angústia

Amargura

Mágoa

Padecimento

Ressentimentos

Tortura...


Quanto mais anelamos reter

mais somos afastados.

Daí nasce: 

Apatia

Desalento

Desilusão 

Frustação


Nas trevas,

imperava o sentimento 

que nossa vontade e desejo

eram supremos. Consequentemente,

víamos todos os que se opunham esmagados.


No fulgor, 

sentimento que o outro

tem vontades e mesmo assim

impulsiona-o, ajuda-o a regar.

Sentimento que a árvore que rego

teima em expandir os galhos e frutos

para o quintal do vizinho

e, ainda assim, continuar regando.


A emancipação vem, quando:

somos livres para caminhar

sem a preocupação 

de sermos ou não seguidos.

E tudo bem,

se o outro se inclina na direção oposta.


Muita água correu pelas pedras 

e levou consigo muita sujeira.

O clarão voltou a brilhar 

e nos mostrou 

o que possuíamos:

sombras e substâncias

ambas semelhantes a fogos de artifícios

que só brilharam por um instante:

fugaz

efêmero

estrela cadente.

E se dissipou 

nos deixando despidos e sozinhos.


O Único que ama

nos ensima a descobri-lo

através de suas dádivas.

E Ele nasce do que distribuímos

e não do que guardamos.


Parece estranho 

mas o pássaro que melhor canta

não vive em casa dourada.

E sim, aquele que habita uma gaiola

com alimento saudável

água limpa e fresca

e, especialmente, de porta aberta.



JOSÉ AILTON SANTOS


*Uma singela homenagem a Krishnamurti e ao seu texto, Aos pés do Mestre.


2 comentários:

  1. Uma pérola, bravo poeta desbravador! 👏👏

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  2. Parabéns parceiro, descreveu o caminho pelo qual todos nós ja passamos ou iremos passar.

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