Olhou-o em profundidade
lembrou da adolescência
e de quão encantador lhe parecia
ainda impressionava-se com a vastidão.
O oceano era a muralha
que gradeava a paixão dentro de si
o imaginário fastuoso da outra margem
era mais tentador que a maçã edênica
todavia, diferente de Eva, não mordeu.
Uma vez, passeou nas ondas de jangada
uma luz vivaz irradiava da face
semblante elevado e lábios elásticos
sorria, sorria, sorria...
peristalticamente.
Comedida pensou:
se a embarcação não suportar as ondas?
se os ventos rumarem em direção distinta?
se não houver lugar na outra margem para mim?
se, se, se's... incertezas e dúvidas.
A embarcação se foi
e com ela outros tripulantes.
Sentou na areia
e se viu cada vez menor no horizonte.
As ondas vinham e lhe estendiam a mão
contudo, cruzou os braços hesitante
queria e temia, feito gelo e fogo
o silêncio espiritual habitou.
Foi morar longe do mar
cresceu em casa com jardim
chegou a pensar que amava as flores
que tinha aprendido a sorrir com elas
porém, à noite, a visão ressurgia
a paixão pela imagem feérica da outra margem.
Fogueira em chamas.
Queria entrar no oceano:
sem roupas
sem hesitação
sem embarcação
sem medo de afogamento...
nadar com braçadas largas
nadar toda distância com um fôlego apenas
ter uma visão clara da outra margem.
Ao crepúsculo do dia
correu para o oceano
pôs os pés nas águas,
girou e pulou feito criança
cantou e dançou
sorriu, sorriu...
íntima e profundamente.
As lembranças da embarcação
as lembranças do passeio entre as ondas
as lembranças do cheiro do mar
as lembranças do marinheiro.
Nostálgica, chorou.
Ao cair da tarde,
de volta ao jardim,
não via mais o colorido das flores
apenas, um impulso recorrente
"a travessia do oceano".
As águas invadiam o ser por inteiro
angustiada, sufocada...
temia afogar-se em devaneios,
o sonho recorrente passou dos limites.
Mudou-se de casa e foi morar no sítio
voltou a cultivar flores, convidou as abelhas
e voltou a sorrir, até que em algum dia
a outra margem te convide novamente
a fazer a tão sonhada travessia.
José Ailton Santos - Licenciado em História pela Universidade Federal de Sergipe, Pós Graduado pela Faculdade Pio X em História do Brasil, Graduando do curso de Administração de Empresas pela UNIT, ex-professor efetivo da rede estadual de ensino do estado de Sergipe, funcionário efetivo do Banco do Estado de Sergipe com certificação pela ANBIMA, blogueiro, poeta de ocasião e portador da SPNDLR [Síndrome Patológica de Necessidade Diária de Leitura e Reflexão].

No poema Oceano, o eu lírico, narrador em terceira pessoa, revela de modo onisciente as impressões que tem de uma personagem feminina e seu fascínio pelo oceano.
ResponderExcluirA estruturação poética é extremamente interessante ao trazer elementos da "jornada do herói" de Joseph Campbell, que traduz em uma estrutura lógica diversas narrativas míticas de diferentes povos. Segundo Campbell, em toda jornada (não só fictícia como também na própria vida real) passamos por etapas: inicialmente sentimos o chamado para a aventura, o desejo mais íntimo, o impulso primevo, o "desire". A personagem do poema sente o chamado na adolescência, o desejo de alcançar a outra margem, porém há a recusa do chamado, ao contrário de Eva não morde a maçã, como também não sofre as consequências de se fazer escolhas, tem medo. O tempo passa, trilham-se outros caminhos, depara-se novamente com o oceano e o chamado ressurge... a paixão hibernava apenas. Dentro de si, aceita o chamado, cautelosa... adentra o mar com uma jangada, porém as dúvidas e incertezas paralisam: os obstáculos e inimigos, nossos "monstros" interiores. Passar dos recifes não é fácil, o tempo fechou, as ondas mentais viram a jangada e nossa heroína toma um "caldo" e está de volta à praia, ponto de partida, "estaca zero"...será? Não, não há como retroceder, transpôs o primeiro limiar, espera bons ventos para encarar novamente o oceano. Vê claramente a outra margem... será que precisa ser chamada novamente para completar a jornada? Será que precisa de jangada? Ou é hora de sair da superfície e mergulhar em águas profundas? O narrador não revela, pois a jornada não foi concluída. Será que esse ciclo vai se fechar? Quem é o mentor que vai dar o auxílio necessário? Antes de chegar à outra margem, haverá provações, para enfim saborear a recompensa...o que há na outra margem??? Há ainda o caminho de volta, o que implica em uma "transmutação" e o retorno com o elixir. A travessia do oceano é uma metáfora da vida, que nos diz que devemos reconhecer e realizar o nosso propósito, que nos toca profundamente, o que nos move e motiva. Assim, submergimos em nosso inconsciente para emergir, trazer à superfície quem somos de fato.