sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

UM ENCONTRO PARA RECORDAR


Sabe essas coisas que nos acontecem
sem razão aparente
e que uns chamam de acaso,
outros de providência divina
e há quem chame, até de sorte?

Foi assim,
nos conhecemos sem que fôssemos apresentados.
Foi casual
apenas olhares 
                      [recíprocos e cúmplices]
breves, porém ricos de emoção e imaginação

Já num segundo momento e não mais fortuito 
foi a dança que nos aproximou
ou, talvez, fora nossas almas
amigas
amantes
...
andorinhas a voar numa tarde de verão.

Os nossos corpos
alinharam-se à música
[era um tango argentino]
enquanto nossas mãos
paulatina/suave/mente
tocavam de leve o corpo alheio
à medida que suávamos
tocávamos nossas faces
[feito mãos que se unem em oração]
sentíamos nossas respirações 
fortes e desritmadas.

Aconteceu!
Inevitável: como a senilidade e a morte
...um beijo 
e abrimos as portas à intimidade.

Quanto ao final,
não posso contar-lhes
pois ainda não acabou:
a dança
os olhares
os toques
os beijos...

Apenas imaginem.
Duas almas:
irmãs
amigas
amantes
íntimas
cúmplices
...

deitadas num colchão desforrado 
que fora posto 
no chão de uma alcova.
Corpos nus
e mãos à segurar
duas taças de vinho
que, vez por outra, e, por instantes
repousavam na mobília solitária e rústica
... 
e um diálogo leve e flexível
isento de qualquer forma de rigidez.

Afinal, toda rigidez é doentia.

E a nós, ali, uma única certeza:
- pensamos que somos...
- sabemos que somos...

Já, quanto ao amanhã
só há uma convicção,
não faz parte do hoje.

Fora naquele dia e instante
que a conheci,
nem parece que faz tanto tempo
pois, tudo continua:
tão quente
tão colorido
tão indelével.



[José Ailton Santos]


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