sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

FILOSOFIA ESTOICA OU CRISTÃ, A QUEM COMPETE LEGISLAR?*



Desejo muito boa noite aos que apreciam este espaço pluricultural e aos que, por acaso, estejam a visitá-lo pela primeira vez. Agradeço com a devida honra ao autor e moderador deste blog, José Ailton, pela oportunidade de disponibilizar este espaço para uma publicação de minha autoria. Espero, sem negar o peso da responsabilidade, não frustrar os leitores do blog e seguir o ritual do titular do espaço virtual e fornecer mais um manar – esse é o conceito que tenho dos textos já publicados neste blog - capaz de despertar e provocar nos leitores o envolvimento e a colaboração para a construção de um espaço, sólido e promissor. Ambiente esse onde a crítica funciona como bússola na busca pela tão sonhada autonomia intelectual.

Meu desejo é que este texto possa convidar a todos para uma reflexão a cerca de duas formas pelas quais se busca entender e interpretar o universo e a ideia do seu surgimento. Tendo como ponto de partida a filosofia, essa Musa inspiradora, que embebedou no passado os filósofos gregos ao ponto desses – particularmente os estoicos - considerarem o divino como uma representação do equilíbrio cósmico, ou seja, o divino seria aos olhos desses filósofos uma estrutura harmoniosa do cosmo, e, sendo essa harmonia uma característica perfeitamente imanente.

Além da harmonia cósmica, a natureza, segundo os mesmos filósofos estoicos, constituía o verdadeiro modelo de conduta, que por sua vez, alicerçava-se na ética e esta se relacionava diretamente com o equilíbrio da natureza. Os gregos, dizendo melhor, os estoicos, não é menos verdade, se inspiravam na ordem cósmica e desenvolvia sua vida de forma moderada e dessa forma, o corpo estético, a moral e a política se desenvolviam em sintonia com os ensinamentos da própria natureza, que intimamente se mantinham em equilíbrio constante com o Cosmo/divino.

 O axioma máximo dos gregos era corpo sadio mente sadia. O corpo saudável era aquele comedido, em que os valores se encontravam em sintonia com o Cosmo. E este equilíbrio os colocava em relação sincrônica com o divino. É simplesmente através deste processo lógico, que os filósofos em geral procuravam compreender e admirar a ordenação das coisas. Dessa maneira, a razão tinha um lugar preponderante naquela sociedade e entre aqueles povos, pois se tornava admirável diante da compreensão, da conquista e revelação do exercício da teoria como instrumento de admiração, contemplação e entendimento diante da ordem cosmológica. Cabe aqui, fazer uma melhor explanação sobre a palavra teoria para os filósofos estoicos, pois teoria seria a junção de outras duas palavras gregas Theion (divino) e orao  (eu vejo). Portanto, The-oria seria “eu comtemplo o divino”.

A relação dos filósofos estoicos com a admiração ou contemplação mencionada era ao mesmo tempo lógica e racional, porque era a partir da razão que se estabelecia o entendimento sobre o “logos”. Antes da filosofia estoica os gregos recorriam aos deuses para entender o universo. Porém, com o advento da razão os gregos passaram a recorrer à lógica racional para ver o essencial do mundo. O logos na, na verdade, era a essência do principio da razão e por isso divino. Afinal de contas, para eles não significa que este cosmo ordenado e harmonioso seja uma criação esplendida, o que a nosso ver seria criação de Deus. Para os estoicos não é bem assim, o mundo e suas maravilhas, não seria uma criação de Deus, pois estas maravilhas de maneira análoga representa um ser animado e organizado semelhante a um organismo vivo. Porém tais maravilhas são exteriores ao homem e por isso é cosmológico e divino.

Para os filósofos gregos (estoicos) o homem seria capaz de atingir a salvação apenas através do “logos” e por conta própria. Se pudéssemos ouvir um filosofo estoico discursando, estas seriam certamente suas palavras, “somente em ti encontrará as armas capazes de libertá-lo das armas da nostalgia e da esperança, sentimentos que aprisionam o pseudofilosofo, pois o verdadeiro filósofo não se detém diante de sentimentos de esperança e nostalgia”. É espelhando-se apenas na natureza que o filosofo se tornará compreensível com o mundo a sua volta, fazendo uso desta compreensão o mesmo passa a entender o conhecimento, os valores e atinge a própria salvação, que só será possível através do exercício da sabedoria (theorein). Não há espaço para um Deus pessoal, individual, a filosofia estuda o todo e não partes, o sentimento de um deus individual destrói a ideia do cosmo, como unidade harmônica e ordenada. Por essa razão os filósofos estudam astronomia, biologia, física... para mostrar o universo como um todo organizado.

Saindo um instante da teoria filosófica estoica e entrando na teoria do conhecimento do mundo desenvolvida pelos cristãos, veremos que estes nos revelam que o logos é o verbo e que o verbo é Cristo. E que Cristo é o divino que se faz Deus e que este se faz Carne (homem) e habita entre nós. Essa construção teórica ainda vai muito além e submete o logos grego (razão) a fé. Relegando a razão (Logos) para um lugar de descrença, sendo que a esta não caberia exercer a função enquanto instrumento de exercício do intelecto humano.

Com o advento e expansão do pensamento cristão é este o quadro que se apresenta. Os cristãos acreditavam, nos revelavam e nos advertiam, que seria preciso um esforço de fé e confiança no Cristo (analogia do logos estoico) para que pudéssemos galgar a plenitude da vida, superando a morte, conquistando a vida eterna e a feliz ressurreição, que só seria possível através do amor, da comunhão e da compaixão que nos é ofertado na figura do Cristo.

A figura de Cristo e não mais o “logos” constituía-se assim a única fonte capaz de nos relacionarmos com o divino (Deus) para em seguida praticarmos a “boa nova”, isto é, a mensagem trazida e pregada pelo Cristo Salvador (logos estoico). O logos que os gregos acreditavam orientá-los na caminhada para a conquista de uma relação harmoniosa com o Cosmo é substituído radicalmente por uma ética de valores universais, baseada na liberdade como instrumento do livre arbítrio, que será ensinado pelo Cristo, instituidor do axioma “amar o próximo como a si mesmo”. Portanto, é somente através do exercício contínuo destes valores pregados a partir da figura do Cristo, que conseguiremos superar a morte, ou seja, somente através da doutrina da salvação no “logos”, que se dá através de um processo de amor e compaixão em Jesus Cristo (logos cósmico encarnado).

Segundo os teóricos cristãos, Jesus Cristo, após a morte, ressurge diante dos seus. Esse acontecimento, serve de base para provar, que somente através da persistência religiosa, a prática do amor e a humildade traduzida na figura de Cristo (logos encarnado) seria possível superar a morte, ressuscitando para a vida eterna. Esse ressuscitar representa uma possibilidade concreta dos homens se reencontrar com os entes queridos.

Todavia, para que a ressurreição se apresente como algo possível aos homens, esse teriam que cumprir e seguir princípios básicos, como:  amor ao próximo, desapego dos bens materiais e o constante exercício da fé em Deus (Cosmo/Divino). Cristo seria a própria encarnação de Deus, que se fez homem para habitar entre nós. Cristo nesse caso substituiria a ideia do Cosmo como uma ordem justa e boa, a partir da superação da morte pelo exercício do amor, que seria um sentimento vivo e que habita nos homens e que os torna imortal.

Bem, como compreender tão radical ruptura no modelo de compreensão do universo. Certamente, os estoicos perguntaria, que racionalidade ilumina a mente dos cristãos para anunciar, tais “verdade”. Para os estoicos, Cristo não poderia ser o modelo de harmonia cósmica, pois não há como uma parte representar o todo. Não há como algo que se diz transcendente, ocupar um lugar de imanência, pois a imanência em relação ao mundo se dá, quando algo se relaciona apenas com o mundo.

Ouso afirmar, que seria impossível para um filosofo grego aceitar argumentação tão complexa, ou melhor, absurda. Para os estoicos, o divino jamais poderia transcender, já que representava o Cosmo e este seguia uma ordem, onde a natureza representa o verdadeiro modelo ético e ordenado da razão. E que só esta (natureza) nos forneceria o conhecimento cosmológico, capaz de nos conduzir a conquista da sabedoria. E nos ensinar, a superação da morte só seria possível através de exercício de compreensão do logos racional, buscando-se a conquista do entendimento do Cosmo belo, ordenado, justo e divino.

Dessa forma, para os estoicos, o homem constituiria um elemento essencial nesta ordenada relação cosmológica. E a consciência do seu lugar no Cosmo só seria possível com uma boa bagagem teórica a cerca do mundo cosmológico. Consequentemente, esta sabedoria teórica garantiria a superação da morte como elemento de passagem para o infinito, conforme asseguravam os cristãos, pois para os filósofos estoicos a verdade sobre a morte é que ela seria uma finitude física, que não esgota por si mesmo a atemporalidade do Cosmo. Cada homem representaria, uma parte do todo cósmico e não uma parte isolada do mundo divino.

Contrapondo-se aos gregos surgem os católicos cristãos afirmando que, o divino é Deus e que Deus se faz homem e que este homem é Cristo seu filho - o logos encarnado. Este conflito teórico, gerou uma desordem na sociedade da época, que consequentemente desencadeou uma mudança total de postura. Pois, segundo os cristãos a superação do “logos” por Cristo seria a porta de saída para a superação do problema da morte.

Enquanto os estoicos, diferentemente, buscavam em si, através da sabedoria, uma saída para superar esta “carnívora assanhada”, os cristãos diziam o contrário, que somente em Cristo é possível superar a morte, e diziam mais, Ele representa o caminho, a verdade e a vida. Somente por Cristo se alcançaria a salvação pessoal e material, gozando do privilegio de poder rever os seus no paraíso eterno, onde todos são iguais perante o divino.

Como ordenar esta sociedade que busca em um ser transcendente, contrapondo-se ao imanente, uma saída lógica, no sentido racional, uma saída para a morte, que seria a finitude humana. Pois bem os cristãos irão prometer aos mansos e humildes de coração o reino dos céus e a superação da finitude através do exercício do amor em Cristo Jesus. É o verbo que se fez “logos” vivo e que representa a prova e verdade inconteste da superação da morte pelo amor. Contudo, esta verdade só será possível se creres, que Cristo é o único salvador (fora dele só há trevas).

O axioma “eu sou o caminho a verdade e a vida, ninguém vai ao pai se não por mim”, ao longo dos tempos se sobrepôs ao axioma estoico “corpo sadio mente sadia”. Mas, emergindo o modelo de contemplação e questionamento estoico, pergunto como aceitar que a salvação não está na nossa relação harmoniosa com o Cosmo? Como descontruir a ideia de que a superação, diante da finitude da morte, não se dá através de um processo de sabedoria lógica racional?

Aqui, registro meu olhar pessoal, acredito que a filosofia se apresenta como um caminho capaz de conduzir o homem a superação da morte. Desde que, este aceite a morte como parte constituinte do Cosmo (universo), em detrimento de um processo de fé no Salvador, que mais representa uma solução que pertence a outrem e não uma saída a partir de si. 


* O texto ora publicado é de autoria de Luiz Alberto Santos. Formado em Pedagogia pela Faculdade Pio X, Pós-graduado em Psicopedagogia e Direito Educacional pela mesma instituição e Graduando do curso de Filosofia da UFS. A mim coube a tarefa de postar o texto e a imagem que julguei adequada, além de ceder o espaço para publicação. 

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