Desejo muito boa noite aos que
apreciam este espaço pluricultural e aos que, por acaso, estejam a visitá-lo
pela primeira vez. Agradeço com a devida honra ao autor e moderador deste blog,
José Ailton, pela oportunidade de disponibilizar este espaço para uma
publicação de minha autoria. Espero, sem negar o peso da responsabilidade, não frustrar
os leitores do blog e seguir o ritual do titular do espaço virtual e fornecer
mais um manar – esse é o conceito que tenho dos textos já publicados neste blog
- capaz de despertar e provocar nos leitores o envolvimento e a colaboração
para a construção de um espaço, sólido e promissor. Ambiente esse onde a crítica
funciona como bússola na busca pela tão sonhada autonomia intelectual.
Meu desejo é que este texto possa
convidar a todos para uma reflexão a cerca de duas formas pelas quais se busca
entender e interpretar o universo e a ideia do seu surgimento. Tendo como ponto
de partida a filosofia, essa Musa inspiradora, que embebedou no passado os filósofos gregos ao ponto desses –
particularmente os estoicos - considerarem o divino como uma representação do
equilíbrio cósmico, ou seja, o divino seria aos olhos desses filósofos uma
estrutura harmoniosa do cosmo, e, sendo essa harmonia uma característica perfeitamente
imanente.
Além da harmonia cósmica, a natureza, segundo os mesmos filósofos
estoicos, constituía o verdadeiro modelo de conduta, que por sua vez, alicerçava-se
na ética e esta se relacionava diretamente com o equilíbrio da natureza. Os
gregos, dizendo melhor, os estoicos, não é menos verdade, se inspiravam na
ordem cósmica e desenvolvia sua vida de forma moderada e dessa forma, o corpo estético,
a moral e a política se desenvolviam em sintonia com os ensinamentos da própria
natureza, que intimamente se mantinham em equilíbrio constante com o Cosmo/divino.
O axioma máximo dos
gregos era corpo sadio mente sadia. O corpo saudável era aquele comedido, em
que os valores se encontravam em sintonia com o Cosmo. E este equilíbrio os colocava
em relação sincrônica com o divino. É simplesmente através deste processo
lógico, que os filósofos em geral procuravam compreender e admirar a ordenação
das coisas. Dessa maneira, a razão tinha um lugar preponderante naquela
sociedade e entre aqueles povos, pois se tornava admirável diante da
compreensão, da conquista e revelação do exercício da teoria como instrumento
de admiração, contemplação e entendimento diante da ordem cosmológica. Cabe
aqui, fazer uma melhor explanação sobre a palavra teoria para os filósofos estoicos,
pois teoria seria a junção de outras duas palavras gregas Theion (divino) e orao (eu vejo). Portanto, The-oria seria “eu comtemplo o divino”.
A relação dos filósofos estoicos com a admiração ou
contemplação mencionada era ao mesmo tempo lógica e racional, porque era a
partir da razão que se estabelecia o entendimento sobre o “logos”. Antes da filosofia
estoica os gregos recorriam aos deuses para entender o universo. Porém, com o
advento da razão os gregos passaram a recorrer à lógica racional para ver o
essencial do mundo. O logos na, na verdade, era a essência do principio da
razão e por isso divino. Afinal de contas, para eles não significa que este
cosmo ordenado e harmonioso seja uma criação esplendida, o que a nosso ver
seria criação de Deus. Para os estoicos não é bem assim, o mundo e suas
maravilhas, não seria uma criação de Deus, pois estas maravilhas de maneira análoga
representa um ser animado e organizado semelhante a um organismo vivo. Porém
tais maravilhas são exteriores ao homem e por isso é cosmológico e divino.
Para os filósofos gregos (estoicos) o homem seria capaz de
atingir a salvação apenas através do “logos” e por conta própria. Se pudéssemos
ouvir um filosofo estoico discursando, estas seriam certamente suas palavras, “somente
em ti encontrará as armas capazes de libertá-lo das armas da nostalgia e da
esperança, sentimentos que aprisionam o pseudofilosofo, pois o verdadeiro filósofo
não se detém diante de sentimentos de esperança e nostalgia”. É espelhando-se
apenas na natureza que o filosofo se tornará compreensível com o mundo a sua
volta, fazendo uso desta compreensão o mesmo passa a entender o conhecimento,
os valores e atinge a própria salvação, que só será possível através do
exercício da sabedoria (theorein). Não há espaço para um Deus pessoal,
individual, a filosofia estuda o todo e não partes, o sentimento de um deus
individual destrói a ideia do cosmo, como unidade harmônica e ordenada. Por
essa razão os filósofos estudam astronomia, biologia, física... para mostrar o
universo como um todo organizado.
Saindo um instante da
teoria filosófica estoica e entrando na teoria do conhecimento do mundo
desenvolvida pelos cristãos, veremos que estes nos revelam que o logos é o
verbo e que o verbo é Cristo. E que Cristo é o divino que se faz Deus e que
este se faz Carne (homem) e habita entre nós. Essa construção teórica ainda vai
muito além e submete o logos grego (razão) a fé. Relegando a razão (Logos) para
um lugar de descrença, sendo que a esta não caberia exercer a função enquanto instrumento
de exercício do intelecto humano.
Com o advento e expansão do pensamento cristão é este o
quadro que se apresenta. Os cristãos acreditavam, nos revelavam e nos advertiam,
que seria preciso um esforço de fé e confiança no Cristo (analogia do logos
estoico) para que pudéssemos galgar a plenitude da vida, superando a morte,
conquistando a vida eterna e a feliz ressurreição, que só seria possível
através do amor, da comunhão e da compaixão que nos é ofertado na figura do
Cristo.
A figura de Cristo e não mais o “logos” constituía-se assim a
única fonte capaz de nos relacionarmos com o divino (Deus) para em seguida
praticarmos a “boa nova”, isto é, a mensagem trazida e pregada pelo Cristo
Salvador (logos estoico). O logos que os gregos acreditavam orientá-los na
caminhada para a conquista de uma relação harmoniosa com o Cosmo é substituído
radicalmente por uma ética de valores universais, baseada na liberdade como
instrumento do livre arbítrio, que será ensinado pelo Cristo, instituidor do
axioma “amar o próximo como a si mesmo”. Portanto, é somente através do
exercício contínuo destes valores pregados a partir da figura do Cristo, que
conseguiremos superar a morte, ou seja, somente através da doutrina da salvação
no “logos”, que se dá através de um processo de amor e compaixão em Jesus Cristo
(logos cósmico encarnado).
Segundo os teóricos cristãos, Jesus Cristo, após a morte,
ressurge diante dos seus. Esse acontecimento, serve de base para provar, que somente
através da persistência religiosa, a prática do amor e a humildade traduzida na
figura de Cristo (logos encarnado) seria possível superar a morte, ressuscitando
para a vida eterna. Esse ressuscitar representa uma possibilidade concreta dos
homens se reencontrar com os entes queridos.
Todavia, para que a ressurreição se apresente como algo
possível aos homens, esse teriam que cumprir e seguir princípios básicos, como:
amor ao próximo, desapego dos bens
materiais e o constante exercício da fé em Deus (Cosmo/Divino). Cristo seria a própria
encarnação de Deus, que se fez homem para habitar entre nós. Cristo nesse caso
substituiria a ideia do Cosmo como uma ordem justa e boa, a partir da superação
da morte pelo exercício do amor, que seria um sentimento vivo e que habita nos
homens e que os torna imortal.
Bem, como compreender tão radical ruptura no modelo de
compreensão do universo. Certamente, os estoicos perguntaria, que racionalidade
ilumina a mente dos cristãos para anunciar, tais “verdade”. Para os estoicos,
Cristo não poderia ser o modelo de harmonia cósmica, pois não há como uma parte
representar o todo. Não há como algo que se diz transcendente, ocupar um lugar
de imanência, pois a imanência em relação ao mundo se dá, quando algo se
relaciona apenas com o mundo.
Ouso afirmar, que seria impossível para um filosofo grego
aceitar argumentação tão complexa, ou melhor, absurda. Para os estoicos, o
divino jamais poderia transcender, já que representava o Cosmo e este seguia
uma ordem, onde a natureza representa o verdadeiro modelo ético e ordenado da
razão. E que só esta (natureza) nos forneceria o conhecimento cosmológico,
capaz de nos conduzir a conquista da sabedoria. E nos ensinar, a superação da
morte só seria possível através de exercício de compreensão do logos racional,
buscando-se a conquista do entendimento do Cosmo belo, ordenado, justo e divino.
Dessa forma, para os
estoicos, o homem constituiria um elemento essencial nesta ordenada relação
cosmológica. E a consciência do seu lugar no Cosmo só seria possível com uma
boa bagagem teórica a cerca do mundo cosmológico. Consequentemente, esta
sabedoria teórica garantiria a superação da morte como elemento de passagem
para o infinito, conforme asseguravam os cristãos, pois para os filósofos estoicos
a verdade sobre a morte é que ela seria uma finitude física, que não esgota por
si mesmo a atemporalidade do Cosmo. Cada homem representaria, uma parte do todo
cósmico e não uma parte isolada do mundo divino.
Contrapondo-se aos gregos surgem os católicos cristãos afirmando
que, o divino é Deus e que Deus se faz homem e que este homem é Cristo seu
filho - o logos encarnado. Este conflito teórico, gerou uma desordem na
sociedade da época, que consequentemente desencadeou uma mudança total de
postura. Pois, segundo os cristãos a superação do “logos” por Cristo seria a
porta de saída para a superação do problema da morte.
Enquanto os estoicos, diferentemente, buscavam em si, através
da sabedoria, uma saída para superar esta “carnívora assanhada”, os cristãos
diziam o contrário, que somente em Cristo é possível superar a morte, e diziam
mais, Ele representa o caminho, a verdade e a vida. Somente por Cristo se alcançaria
a salvação pessoal e material, gozando do privilegio de poder rever os seus no
paraíso eterno, onde todos são iguais perante o divino.
Como ordenar esta sociedade que busca em um ser transcendente,
contrapondo-se ao imanente, uma saída lógica, no sentido racional, uma saída
para a morte, que seria a finitude humana. Pois bem os cristãos irão prometer
aos mansos e humildes de coração o reino dos céus e a superação da finitude
através do exercício do amor em Cristo Jesus. É o verbo que se fez “logos” vivo
e que representa a prova e verdade inconteste da superação da morte pelo amor.
Contudo, esta verdade só será possível se creres, que Cristo é o único salvador
(fora dele só há trevas).
O axioma “eu sou o caminho a verdade e a vida, ninguém vai ao
pai se não por mim”, ao longo dos tempos se sobrepôs ao axioma estoico “corpo sadio
mente sadia”. Mas, emergindo o modelo de contemplação e questionamento estoico,
pergunto como aceitar que a salvação não está na nossa relação harmoniosa com o
Cosmo? Como descontruir a ideia de que a superação, diante da finitude da morte,
não se dá através de um processo de sabedoria lógica racional?
Aqui, registro meu olhar pessoal, acredito que a filosofia se
apresenta como um caminho capaz de conduzir o homem a superação da morte. Desde
que, este aceite a morte como parte constituinte do Cosmo (universo), em
detrimento de um processo de fé no Salvador, que mais representa uma solução
que pertence a outrem e não uma saída a partir de si.
* O texto ora publicado é de autoria de Luiz Alberto Santos. Formado em Pedagogia pela Faculdade Pio X, Pós-graduado em Psicopedagogia e Direito Educacional pela mesma instituição e Graduando do curso de Filosofia da UFS. A mim coube a tarefa de postar o texto e a imagem que julguei adequada, além de ceder o espaço para publicação.
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