quinta-feira, 26 de março de 2026

O HOMEM E A CAVERNA


Descobrir que se vivesse 

nos tempos das cavernas

estaria lá até hoje

não por apego, e sim por medo.


Se fosse um dos raros ancestrais

nos primordios da humanidade

habitando em cavernas

não chegaríamos até aqui

ao menos, não por meu mérito

pois não seria capaz de abandonar

o "lugar seguro"

o mundo conhecido

o meu referencial

o meu mapa...

para ousar dar passos no escuro.


Sempre que resolvo apagar as luzes 

tenho a sensação que alguém

em um canto escuro me espreita

algo me acompanha sem que perceba

sei porque minha intuição me alerta

isso me deixa, 

instável e inseguro.

Então:

arrepios

medo 

pavor

taquipneia...

não resisto a escalada

daí, dedo no interruptor.

Luzes, ufa!


Hoje, ao chegar em casa

uma coragem pulsava

dentro de mim

algo em meu interior

queria sentir/enfrentar aquela escuridão.

Dedo no interruptor,

luzes cessaram 

penumbra total

gritos no coliseu 

e na arena, uma batalha de gladiadores.


Senti que algo 

que antes me olhava

continuava mirando em mim.

Algo que me seguia

sem ser percebido

continuava ao meu lado

ritmando meus passos e movimentos.


Sentei, silenciei e abandonei os referenciais

os ambientes, os cômodos, as portas, os objetos

não eram mais percebidos

sumiram.

Tudo se converteu em um grande nada.


Ainda assim, continuei ali

sentado

imóvel

estático

porém, vivo e alerta

respiração serena

sem medo

sem arrepios

sem ofegância

só silêncio, eu e a escuridão que me envolvia


Olhar em derredor

de repente, tudo foi se apresentando novamente

os espaços, os contornos, os detalhes antes visto

tudo voltou a se apresentar como outrora

ainda que vestidos de outros tons.


A escuridão só existe

no instante da travessia

entre as luzes acesas e apagadas


A escuridão só existe 

para o ser que se ver apartado

morto por dentro e vivo por fora

pois, vida e morte 

são extremos de uma mesma substância.

Há nitidez em ambas as formas

luzes e sombras

basta apenas que tenhamos 

licenças e credenciais 

de acessos aos dois mundos.


Ali sentado, enquanto olhava no escuro

me vi, nos primordios, em um canto da caverna

de cócoras, sedento, assustado 

coração e pulso em descompasso.


Algo em mim não entendia

como consegui sair daquela caverna

apenas tenho clareza que sair

pois, se consigo, do lugar onde estou

me ver lá em um passado desconhecido

sombrio e distante

hesitante e conflitivo

é porque removi as pedras.

Se olho do presente para o passado

e me vejo, certamente, rompi a fronteira 

alcancei, ainda que não saiba como,

rasgar a cortina e o véu

que separa os dois instantes

luz e sombra.

 

As luzes da modernidade

adestraram nosso olhar

assim penso e sinto

para um mundo de claridade artificial

e, quando, esse mesmo olhar

é posto diante da escuridão humana

o olho se ofusca

ele se perde

se assusta

se apavora

feito filho abandonado

criado em lar alheio

perdemos o referencial de origem:

do torrão

das raízes

da família

de si mesmo

do nosso lugar no cosmo.


Deixo aqui minha lição.


Dedo no interruptor

apague as luzes

sente e mantenha olhos 

abertos e atentos

apenas se permita olhar 

a escuridão em volta

que surpresa não será a sua

quando notar que o outro 

diante de ti, sentado ao seu lado

face a face

em uma caverna escura

é você. E dizendo a si mesmo.

- Há quanto tempo?!


Que surpresa não será

quando perceber que na escuridão

não há leões

mas, sim, você

e o registro de toda sua vida

e seus embates com a realidade.


Doravante, à noite

independente de onde estiver

apage as luzes

e acenda uma vela

de preferência

uma que dure

uma que queime

dia e noite.


José Ailton Santos


Como lenha seca, que não faz fumaça, estimula o fogo e faz clarão, acenderam minhas ideias uma canção, alguns livros e seus respectivos autores abaixo descritos:

*Uma canção dos anos 80 do século passado, Morto por Dentro, dos compositores: Elcio Neves Borges, Iara Fortuna e Paraíso; popularizada na voz do cantor Barrerito.

*O médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson

*O homem e seus símbolos de Carl Jung.

*A caminho da Luz, psicografia de Chico Xavier pelo espirito Emmanuel.

*Isis sem véu de autoria de Helena P. Blavatsky

*Luz no caminho de Mabel Collins

* O Mito da Caverna de Platão, contido no livro A República

* A interpretação dos Sonhos de Sigmund Freud.

2 comentários:

  1. O ser humano é um organismo vivo que precisa de vários fatores externos para que o processo de transformação/evolução ocorra. Alguns conseguem habitar em solo fertil e mesmo assim, não conseguem se desnvolver com a exuberância, esperada. Não precisa ser botânico para saber que a qualidade da semente, assim com a variação da temperatura e ausência de chuva interfere, não só na transformação como também na sobrevivência.

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  2. O que mais nos assusta geralmente é o que carregamos dentro. Excelente texto.

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