segunda-feira, 6 de maio de 2024

VESTIDO DE POESIA




Quando escrevia poesias

pensava que poesia 

era uma mulher nua.

[ideal ou concretamente].

E uma boa poesia 

era uma mulher nua

deitada ao meu lado,

com a cabeça 

repousada em meu peito.


Hoje, não escrevo poesias,

acabei casando com os versos.

A nudez d'antes

é simplória

são rimas pobres...

descobri que a mulher vestida

é rima emparelhada,

alternadas [primeiro com o terceiro]

é rima oposta ou interpoladas

[primeiro com o quarto

e segundo com o terceiro]

é rima aguda e esdrúxula.


A mulher bem composta 

são versos decassílabos

[à moda de Camões¹]

são versos alexandrinos.

A mulher bem vestida 

é a beleza métrica,

que repousa na elegância,

que o digam, Castilho² e Machado³.


A nudez poética

é a poesia nua,

porém vestida.

Do contrário,

é apenas uma nudez Adâmica*

[que jamais é o que se pensa ser**]

o que é ridícula

não serve nem para soneto

não sem razão, 

Deus fez roupas de pele

e os vestiu.


Já não escrevo mais, 

a nudez não me apetece,

a vestimenta se rasgou.

De resto,

a nudez vestindo o verso e a poesia 

eis no que me tornei.




José Ailton Santos



¹ - Camões - Referência a Luís Vaz de Camões, um poeta português e um dos maiores poetas da literatura lusófona e da literatura ocidental. 

² - Castilho - Referência a Antônio Feliciano de Castilho, escritor romântico português e sistematizador do verso alexandrino francês.

³ - Machado - Referência a Joaquim Maria Machado de Assis, sem sombra de dúvidas o maior nome da literatura brasileira, e o primeiro a usar em larga escala no Brasil o verso alexandrino, no período estético do Romantismo.

* - Adâmico - Referência a Adão, primeiro homem que habitou o mundo, de acordo com a Bíblia.

** - Referência a FREUD ao tratar da nudez da consciência narcísica imediata. Para ampliação sobre o tema indico três obras do autor, a saber, Totem e Tabu [1974], Mal-estar na civilização [1996] e Além do princípio do prazer [2006]. 


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