Vou logo advertindo, o título não faz menção a data de nenhuma promulgação de lei. Antes fosse, pois essa sem dúvida vingaria pela importância da data. Trata-se do dia em que uma sessão de tortura, num prédio de uso do Destacamento de Operações Internas do Comando Operacional de Informações do II Exército [para ser mais exato, na Rua: Tomás Carvalhal, 1030, no bairro do Paraíso, em São Paulo], levou um jornalista da TV Cultura a óbito. O jornalista em questão era Wladimir Herzog, conhecido pela alcunha de Vlado. Esse era ligado ao Partido Comunista [qualquer semelhança com a atualidade é mero acaso], mas, apesar de apoiar o movimento de resistência a ditadura militar, nunca fora apaixonado pela política. Suas paixões eram: teatro, cinema, ópera e o universo das letras.
O caso relatado acima meus caros, apesar do tempo, não é coisa do passado. Pois, amiúde, inúmeros jornalista no Brasil e no mundo ainda sofrem repressão [refiro-me ao ato ou efeito de reprimir] por conta dos seus escritos. Felizmente não sou jornalista, ficcionista, nem gozo da habilidade na escrita, característica marcante dessa categoria de profissionais. Por conseguinte, vou logo avisando para me deixarem em paz.
Trago-lhes outra data, 29 de maio de 2012, para ser mais exato, às 09hs:57min, fora publicado num site de um estado da federação um texto de um jornalista sergipano, que por hora evito anunciar o nome [não é por falta de coragem, prudência ou qualquer coisa do tipo, é por frouxidão mesmo. Afinal, quem tem Cobre tem medo.] Todavia, antecipo o título "Eu, o coronel em mim". O texto trás um monólogo, que julgo bem humorado, e retrata o olhar de um homem acostumado com o poder. O personagem ficcional, como se estivesse em um divã, aproveita o relaxamento do corpo e espírito para abrir a caixa de Pandora dos seus sentimentos e segredos mais íntimos. Enfim, o personagem inominado pareceu aos olhos de um leitor especial, feito imagem refletida em espelho, onde olhamos e de pronto nos enxergamos. Mas, para tristeza desse leitor especial, a imagem refletida apresentou aspectos íntimos, que o mesmo teima em manter não revelados.
Diante desse caso me veio a mente o conto de Machado - o espelho - onde o autor afirma que, toda criatura humana traz consigo duas almas, uma delas olha de dentro para fora e a outra olha de fora para dentro. Creio que essa observação do autor é metafisica demais para mim, então, deixo-a de lado e volto para analisar o comportamento psicológico do personagem ficcional do mencionado texto. Será que o espelho dele mostrou-lhe alguém mais belo? E que essa beleza apresentada, despertou sua ira. Então, igual a madrasta da Branca de Neve, furiosa e diligentemente abandonou seus afazeres habituais para conseguir uma maçã, a qual deverá ser entregue ao dono da beleza revelada pelo fiel espelho mágico. Como não sou uma autoridade no assunto, a saber, analisar comportamentos de personagens ficcionais, melhor seria convidar Jung para desvendar estes mistérios.
Ainda sobre a teoria das duas almas, contidas no conto de Machado, a alma externa quase sempre controla a interna. E, quando isso ocorre, o encantamento produzido pela alma vencedora conduz os homens a beira da fonte onde, todas as tardes, Narciso ia à procura de sua alma gêmea. Comparativamente, as autoridades que levaram Vlado para torturá-lo e, em seguida, após sua morte, o apresentaram como um suicida, assemelha-se a alma absorvente - a pátria - que fez Camões jurar que morreria por ela, bem como, a alma exterior - o poder - que conduzira César e Cromwell aos seus destinos.
O enigma que atravessa toda extensão deste texto, serve meus amigos, como recurso camaleônico para que eu não seja o próximo a provar da maçã, que forçosamente, o personagem do conto ficcional do jornalista sergipano deseja que seu criador coma, ainda que, a contragosto. A razão? Ter, coincidentemente, descrito uma imagem interior semelhante, quiçá, idêntica a do personagem ferido.

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